Entre os dias 8 e 9 de abril, representantes de 24 Estados da costa atlântica, africana e da América do Sul estarão reunidos no Rio de Janeiro para celebrar os 40 anos da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas). Trata-se de um instrumento de articulação político-diplomática e de cooperação Sul-Sul que nasceu num mundo muito diferente do atual — e que, precisamente por isso, nunca foi tão necessário.A Zopacas foi aprovada pela Assembleia-Geral das Nações Unidas em 1986, com o voto contrário dos Estados Unidos e a abstenção de alguns Estados da Europa, como Portugal. A iniciativa foi promovida pelo Brasil com o objetivo de promover a cooperação regional e preservar a paz e a segurança no Atlântico Sul durante a Guerra Fria — impedindo que a rivalidade entre as superpotências gerasse instabilidade ou abrisse a porta à introdução de armas nucleares ou de destruição em massa na região.O documento fundador apoiava a independência da Namíbia, condenava o uso da força, o colonialismo, o racismo e o Apartheid. Já na origem, a Zopacas incorporava preocupações ambientais — proteção do meio ambiente, conservação dos recursos marinhos — que só décadas depois ganhariam centralidade na agenda global, assim como o compromisso com o desenvolvimento social e económico dos países membros.Quatro décadas de existência são, ao mesmo tempo, o atestado da vitalidade do mecanismo e o espelho dos seus limites: baixa institucionalização, irregularidade dos encontros ministeriais, agenda temática excessivamente ampla e expectativas nem sempre correspondidas em relação ao papel do Brasil como principal motor da iniciativa. Mesmo assim, o contexto internacional atual torna o fortalecimento da Zopacas mais urgente do que nunca.O regresso da competição entre grandes potências e a intensificação dos conflitos nos espaços marítimos relançam a pertinência de um fórum autónomo de paz no Atlântico Sul. A saída dos Estados Unidos, em janeiro de 2026, da Parceria para a Cooperação Atlântica deixa um vácuo político e institucional que a Zopacas tem condições únicas de preencher — afirmando-se como o principal espaço de concertação entre as duas margens do oceano.No plano económico, o Brasil aspira a aprofundar a cooperação com os países africanos e a criar pontes comerciais entre o Mercosul e a Zona de Livre Comércio Continental Africana, além de impulsionar projetos ligados à economia azul — um campo em franca expansão que abrange a exploração sustentável dos recursos oceânicos.Outros temas de interesse comum estão igualmente em jogo: conservação do ambiente marinho, poluição, mapeamento do fundo do mar, combate à pesca ilegal, transportes aéreo e marítimo, e segurança no mar. Nesse espírito, a Marinha do Brasil promoverá, na semana da reunião ministerial, o 3.º Simpósio Marítimo da Zopacas.Entre os mecanismos que operam no Atlântico Sul, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) destaca-se por reunir a maior parte dos seus membros na região. A convergência entre a Zopacas e a CPLP em temas de interesse partilhado abre uma janela de oportunidade para uma cooperação reforçada entre os dois fóruns — e para que o Atlântico Sul consolide, de forma cada vez mais consistente, a sua vocação de zona de paz, diálogo e desenvolvimento.A Zopacas nasceu como resposta a um mundo em Guerra Fria. Sobreviveu à implosão dessa ordem. E chega ao seu 40.º aniversário num momento em que o Atlântico Sul volta a ser palco de disputas e ambições que o ultrapassam. A pergunta que se impõe não é se a Zopacas tem história para contar — é se os seus membros terão vontade política para escrever, juntos, o próximo capítulo.