Quando uma jovem pede para morrer, o que falhou antes?

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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A história da jovem espanhola que pediu ajuda para morrer é devastadora, não apenas pelo desfecho, mas pelo percurso de sofrimento que a antecedeu. Durante anos, viveu com dor crónica, danos irreversíveis e memórias traumáticas. Foi institucionalizada no início da adolescência, num espaço que deveria ter sido de proteção, cuidado e segurança. No entanto, foi precisamente dentro dessa instituição que sofreu uma agressão sexual em grupo - um ato brutal que destrói não só o corpo, mas também a confiança, a identidade e a relação com o mundo. A partir daí, a sua vida tornou-se uma luta pela sobrevivência, com várias tentativas de suicídio falhadas. Tudo isto antes de chegar ao ponto extremo de pedir para morrer.

Apesar da complexidade e gravidade desta história, grande parte da discussão pública centrou-se quase exclusivamente na legitimidade - ou não - da eutanásia. Como se a única questão fosse essa. Como se tudo o resto fosse secundário. Mas há perguntas muito mais difíceis, muito mais incómodas, que raramente são feitas.

Como é que deixámos alguém chegar aqui? Que falhas estruturais permitiram que uma adolescente vulnerável fosse violentada dentro da instituição que deveria protegê-la? Que tipo de acompanhamento médico e psicológico especializado recebeu após a agressão? Teve continuidade de cuidados? Teve uma rede de suporte que a validasse e a segurasse? Ou foi mais uma jovem deixada à deriva, a tentar sobreviver sozinha a algo que ninguém deveria enfrentar sem ajuda? E quando tentou suicidar-se?

Uma tentativa de suicídio é sempre um grito, um pedido de ajuda, um sinal de que a dor ultrapassou todos os limites. O que aconteceu depois?

A pergunta que ninguém quer fazer é esta: o que poderíamos ter feito para evitar que esta jovem chegasse ao ponto de desejar morrer?

Porque esta história não é apenas sobre eutanásia. É sobre falhas sistémicas profundas. Falhámos na proteção institucional. Falhámos na prevenção da violência sexual. Falhámos na resposta imediata ao trauma. Falhámos na continuidade dos cuidados. Falhámos na saúde mental pública. Falhámos na proteção de uma jovem que gritou durante anos sem que ninguém a ouvisse verdadeiramente. Falhámos enquanto sociedade.

Precisamos de equipas especializadas em trauma acessíveis e gratuitas, de intervenção psicológica imediata após agressões sexuais, de acompanhamento continuado e não episódico, de supervisão rigorosa das instituições que acolhem crianças e jovens, de formação de profissionais para reconhecer sinais de risco e perigo, e de políticas públicas que tratem a saúde mental como uma prioridade.

Precisamos, sobretudo, de uma sociedade que não normalize o sofrimento silencioso.

Quando alguém pede para morrer, a pergunta mais urgente não é:“Devemos permitir?” A pergunta mais urgente é: “Como é que esta pessoa chegou a um ponto em que viver se tornou insuportável?” E, sobretudo: “O que podemos fazer para que mais ninguém chegue aqui?”

Porque a verdadeira discussão não é sobre a morte.

É sobre tudo o que falhou na vida.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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