Quando tudo arde

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

Publicado a
Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda.

O que no poema de Sá de Miranda era metáfora do poder do amor sobre a razão, vem na nossa conversa de atualidade converter-se (por escondermos o contexto da frase no soneto) numa injunção desesperada à incapacidade da razão moderna, tecnológica e cheia de soberba com as suas infinitas capacidades, em debelar um fogo que ameaça vidas e bens humanos e que se generaliza, cada vez com mais poder de destruição, por vários continentes.

Não, não foi a ciência, a que nos salvou das últimas pandemias, que nos falhou. Foi a capacidade, não científica, mas política, de agir preventivamente à enorme escala que era necessária. A Humanidade continua a guerrear-se por poder, riqueza e território, como os nossos antepassados sempre fizeram, mas sem os formidáveis aparelhos de destruição do mundo que os humanos, ou a parte mais enriquecida dos humanos, vieram deter no nosso tempo.

Mas há outros fogos, e esses diretamente comandados por mentes humanas: proliferam as guerras nesta época, sem as regras internacionais da Guerra Fria, que, por injustas que fossem, asseguravam um mínimo de estabilidade a quem não se situasse nas áreas subalternas afro-asiáticas ou latino-americanas, onde as duas grandes potências faziam combater os seus aliados, fossem aliados por vontade ou aliados por falta de alternativa.

Em Portugal procuramos, como nos outros países, entender as causas e definir estratégias. Mas entre nós, a razão das desgraças, por falta de um verdadeiro pensamento global, é atribuída aos responsáveis nacionais, como se fôssemos o único país no mundo a enfrentar os novos desafios.

Assim, a gravíssima crise económico-financeira de 2008 foi imputada a um alegado despesismo do Governo Socialista da época e não à crise mundial e aos vários e ululantes Lehmann Brothers da especulação financeira (os novos Beagle Boys já aí estão, prontos para especular com o que descontámos toda a vida para a reforma). E os fogos têm-nos levado a demitir ou desacreditar ministros, mais do que a resolver problemas, que, contudo, foram identificados.

Gostaria de terminar este artigo pessimista com alguma coisa mais alegre do que um obituário. Mas não posso deixar de referir a morte de um grande poeta brasileiro, que foi meu grande amigo e em quem reconheci afinidades: Alexei Bueno.

António Carlos Secchin sintetiza bem o valor e o sentido da sua poesia:

“Exemplo consumado de crença no poder mítico da palavra poética é Alexei Bueno, cuja obra se tece como uma espécie de herdeira ou defensora da linhagem romântico-simbolista em seus desdobramentos no século XX. Além da qualidade intrínseca de seus textos, cabe assinalar a persistência quase pedagógica do poeta em denunciar o que, a seu ver, consiste numa usurpação do Modernismo às expensas da modernidade: a crença de que só haveria uma ‘boa versão’ do moderno - a que se funda na paródia, no ludismo, no humor, na coloquialização do discurso, na valorização do efémero e do precário em oposição ao eterno e ao monumental. O verso de Alexei, grave, mas não avesso à ironia, convoca outra família, onde se aninham Antero de Quental, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa, nomes fundamentalmente marcados por uma consciência dilemática e dramática da existência.” (in Percursos da Poesia Brasileira, UFMG, 2018)

Seremos ainda capazes, agora sem auras, de levar a sério a poesia?

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