Os divórcios mal geridos estão a gerar um fenómeno cada vez mais visível: crianças transformadas em árbitros emocionais dos pais, investidas de um poder que não têm maturidade para sustentar. Muitos adultos, movidos pelo medo, pela culpa ou pela raiva, acabam por ceder em tudo, ou quase tudo. E, ao fazê-lo, colocam as crianças no centro de decisões que não lhes pertencem. Quando se afirma repetidamente que “a opinião da criança é que conta” ou que “ela tem maturidade para decidir”, está-se, muitas vezes sem intenção, a colocá-la numa posição para a qual não tem maturidade emocional.Estas dinâmicas criam crianças que rapidamente percebem que o conflito parental lhes dá poder. E aprendem a usar a rivalidade entre os pais como ferramenta de negociação: “Se não me deixas fazer isto, vou viver com o pai”; “Se me proíbes de X, vou viver com a mãe.” Revelam um comportamento manipulador que mais não é do que uma adaptação ao ambiente que os adultos criaram. A criança percebe que a sua palavra decide rotinas, horários e até escolhas de vida. E, quando isso acontece, deixa de ser apenas criança.O aparente empoderamento é, na verdade, um enorme peso. Por trás da autonomia forçada surgem ansiedade, medo de desagradar e a necessidade de controlar tudo para não perder ninguém. A criança cresce com a sensação de que o seu comportamento determina o equilíbrio emocional dos adultos, e isso é devastador. A ausência de limites consistentes impede a tolerância à frustração, a capacidade de negociação e o desenvolvimento de competências emocionais básicas.Estes miúdos crescem, chegam à adolescência e à idade adulta, e o resultado é previsível: incapacidade de ouvir um “não”, egocentrismo, dificuldade em lidar com frustrações, relações instáveis e uma identidade frágil. Tornam-se “reis tiranos”, não por força, mas por desamparo. Nunca aprenderam a esperar, a ceder, a lidar com limites. Cresceram a acreditar que o mundo gira em torno das suas necessidades, porque foi isso que os adultos lhes ensinaram.A responsabilidade destas situações não é das crianças. É dos adultos que, por medo, culpa, insegurança ou raiva, lhes entregam um poder que não deveriam ter.O caminho passa por devolver às crianças aquilo que é delas - a infância - e devolver aos adultos aquilo que lhes compete - a responsabilidade de definir limites, cooperar, proteger e decidir.Uma criança não precisa de poder. Precisa de segurança, previsibilidade e adultos que sejam, verdadeiramente, adultos.