Quando Ceuta é culpa de Israel

Esboço de uma genealogia do anti-semitismo contemporâneo
Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

Em Maio de 2021, quando Marrocos abriu a fronteira de Ceuta e empurrou milhares de pessoas para dentro do exclave espanhol, houve quem soubesse de imediato de quem era a culpa. Não de Rabat, que usava corpos humanos como alavanca sobre Madrid, no velho tabuleiro do Sara Ocidental. Não de uma União Europeia incapaz de responder à chantagem migratória que já sofrera antes e voltaria a sofrer. A culpa era de Israel.

A ponte era engenhosa: os Acordos de Abraão tinham aproximado Marrocos de Israel, logo a mão que abria a fronteira era, no fundo, a mão de Jerusalém. O caso é absurdo, e é a sua própria absurdidade que o torna clinicamente útil. Israel não teve mão nenhuma em Ceuta. E, no entanto, de todos os actores com agência real naquela fronteira (Marrocos, Espanha, Bruxelas), o único a quem se atribuiu uma causalidade oculta foi o Estado judaico.

Vale a pena reparar em quem o disse. Não foi o anti-semita rústico, que não sabe. Foi gente instruída, gente que se julga inteligente, e que construiu com fervor a ponte conspirativa que ligava um exclave espanhol a Telavive. A inteligência, aqui, não protegeu do erro. Sofisticou-o.

E convém desmontar a ponte peça a peça, porque ela parece sólida e não é. Que existam alinhamentos entre Israel, Marrocos e os Estados Unidos é verdade, os Acordos de Abraão aproximaram-nos e Washington reconheceu a soberania marroquina sobre o Sara. Mas um alinhamento não é uma ordem. Da existência de uma teia de interesses não se salta, sem prova nenhuma, para a autoria de um acto concreto. E se algum membro do governo israelita aplaudiu depois o sucedido, isso não prova coisa alguma, é a declaração oportunista de sempre, do género das que se fazem todos os dias no jogo político de qualquer país, a capitalizar um resultado que se não provocou. Aplaudir uma coisa depois de ela acontecer não faz de ninguém o seu autor. Falta, no meio de tudo isto, a única coisa que interessa: um facto que ligue a mão de Jerusalém à fronteira de Ceuta. E esse não existe.

Isto não é novo. É a última forma de uma estrutura muito antiga, e convém percebê-la por inteiro antes de a nomear.

Houve primeiro o antijudaísmo teológico. O problema do judeu era a sua fé, e a prova de que era a fé está em que a conversão o resolvia. Baptiza-te e deixas de ser problema. A porta de saída era a religião. Quando essa porta se fechou, no século XIX, nasceu o anti-semitismo racial: o problema já não era o que o judeu cria, era o que o judeu era, o sangue, a raça. E por isso a conversão deixou de servir. Não havia saída, porque a essência não se converte. Essa versão biológica culminou no seu extremo lógico, o extermínio, pela razão simples de que, se o problema é a essência, o único remédio é eliminá-la.

Depois de 1945, o anti-semitismo racial tornou-se indizível. Impronunciável em qualquer espaço decente. E é aqui que a estrutura precisou de um novo objecto que a tornasse dizível outra vez. Parte do anti-sionismo contemporâneo é essa terceira forma. A que permite dizer sobre o Estado o que já não se pode dizer sobre a raça nem sobre a religião. O Estado judaico ocupa a posição que o judeu individual ocupava: o poder oculto, a mão por trás dos acontecimentos, a crueldade essencial, a responsabilidade difusa por males que lhe são alheios. Ceuta é isso em estado puro. A prova de que o objecto já nem precisa de existir para ser convocado.

Aqui é preciso parar e traçar uma fronteira, sob pena de se trocar uma cegueira por outra. Nem todo o anti-sionismo é isto. Existe crítica política genuína a Israel, ao seu governo e às suas políticas, e essa crítica é tão legítima como a que se faz a qualquer Estado. Dizer que anti-sionismo é, sem mais, anti-semitismo, é falso e é autodestrutivo, porque mete no mesmo saco o militante do ódio e o crítico de consciência, e ao alargar a palavra a tudo esvazia-a de força para o caso em que ela verdadeiramente se aplica.

O critério que separa os dois não é o tom, é a singularização. A crítica que se aplicaria a qualquer Estado é política. A crítica que só se aplica àquele, com um padrão que a nenhum outro se exige, é a estrutura antiga a operar sob linguagem nova. Quando se nega a Israel o direito à existência que a nenhum outro Estado se nega, quando se lhe pede o que não se pede a mais ninguém, quando se transfere para o cidadão judeu de Lisboa ou de Paris a responsabilidade pelo que faz um governo em Jerusalém, então a terceira forma está a trabalhar por baixo da linguagem política. O sinal de diagnóstico é sempre o mesmo: a excepção. Tratar Israel como se tratou o judeu, como o caso único a que se aplicam regras únicas.

A pergunta é simples: esta crítica, se aplicada a outro Estado nas mesmas circunstâncias, seria feita da mesma maneira, com a mesma intensidade e as mesmas exigências? Se a resposta é não, estamos no terreno do duplo padrão. É a lógica dos "três D", delegitimação, demonização e duplo padrão, que Natan Sharansky propôs como teste para distinguir a crítica legítima do ódio.

E é este o ponto de que não abdico. Israel é o único Estado do mundo a quem se exige que prove continuamente a sua legitimidade para existir. É chamado colonial numa região onde a principal colonização não foi europeia: houve califados, impérios e pan-arabismos que moldaram povos e línguas tanto quanto qualquer potência ocidental. É julgado como potência agressora quando, nos momentos decisivos da sua história, o casus belli lhe foi frequentemente imposto pelo outro lado, do cerco de 1948 ao encerramento do estreito de Tiran em 1967, da surpresa do Kippur ao massacre do 7 de Outubro. Pode discutir-se quem disparou primeiro num ou noutro episódio. Não se discute quem, vez após vez, tornou a guerra inevitável.

Reparar nisto não é absolver Israel de nada. Há excessos do seu exército, há no seu governo extremistas e ultra-ortodoxos cujos actos beiram o crime e a quem nada me liga. Um Estado que reclama para si o padrão da democracia ocidental tem o dever de ser medido por esse padrão, e falha quando não o cumpre. Mas é justamente por reclamar esse padrão que Israel é escrutinado como nenhum outro. Ninguém enche as praças da Europa contra o Sudão, a Birmânia ou a China pelos seus muçulmanos, porque a nenhum desses Estados se exige o que se exige a Israel. Não há indignação sem expectativa. E há, no fundo desta, um racismo de expectativas baixas que ninguém quer ver: exige-se a Israel porque se o reconhece como um dos nossos, e desiste-se do resto do mundo em silêncio.

Por isso a pergunta que interessa não é sobre eles. É sobre nós. O que Ceuta revela não é nada sobre Israel, que ali não estava. Revela uma estrutura mental que sobreviveu à religião e sobreviveu à raça, e que encontrou no Estado judaico a sua forma dizível. O conflito no Médio Oriente tornou-se um espelho. E quem precisa de Israel para explicar Ceuta não está a falar de Israel. Está a falar de si.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico 

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