Num tempo em que a informação circula à velocidade de um direto televisivo ou de um vídeo partilhado milhares de vezes nas redes sociais, importa recordar uma verdade simples: as crianças não são personagens mediáticas. São titulares de direitos.
Esta reflexão assume particular relevância num momento em que o Conselho da Europa dedica o Dia Europeu para a Proteção das Crianças contra a Exploração e o Abuso Sexual, assinalado a 18 de novembro de 2026, à cobertura mediática ética de situações que envolvem crianças. O objetivo é claro: prevenir a vitimização secundária e colocar os direitos da criança no centro da narrativa.
Embora o foco desta iniciativa seja a violência sexual, os seus princípios aplicam-se a qualquer contexto de vulnerabilidade, incluindo violência doméstica, acidentes, processos judiciais, acolhimento residencial, pobreza ou conflitos familiares.
A questão central não é saber se uma criança pode ser filmada, fotografada ou entrevistada. A questão é perceber qual o impacto dessa exposição na sua vida presente e futura.
Um exemplo recente ajuda a ilustrar este dilema. Durante uma manifestação pelo direito à habitação, uma criança a chorar tornou-se uma das imagens mais divulgadas do acontecimento. A força emocional da imagem amplificou a mensagem da causa, mas levanta uma questão ética incontornável: é aceitável expor daquela forma uma criança em sofrimento? Quando uma criança vulnerável se transforma no símbolo de uma causa, por mais legítima que esta seja, corre-se o risco de instrumentalizar a sua dor para reforçar uma narrativa mediática.
Uma criança em sofrimento dificilmente consegue prestar um consentimento livre e esclarecido para ser exposta perante câmaras. Mesmo quando existe autorização parental, os profissionais da comunicação social devem perguntar-se se a divulgação serve verdadeiramente o interesse público ou apenas a curiosidade pública.
As orientações nacionais e internacionais são claras: a identidade das crianças deve ser protegida sempre que exista risco de dano, estigmatização ou reidentificação. E o anonimato não se limita ao rosto. A divulgação da escola, da residência, de características familiares ou de outros elementos biográficos pode ser suficiente para permitir a identificação.
Também a linguagem importa. Expressões sensacionalistas, estigmatizantes ou culpabilizadoras podem reforçar preconceitos e contribuir para novas formas de violência sobre a criança.
Sem dúvida alguma que o jornalismo desempenha um papel essencial na denúncia de injustiças e na defesa dos direitos humanos. Mas esse papel exige limites éticos claros. Quando existe conflito entre o interesse mediático e o superior interesse da criança, deve prevalecer sempre este último.
Num contexto de competição por audiências, a tentação de mostrar mais é permanente. Contudo, a qualidade do jornalismo não se mede pela proximidade da câmara ao sofrimento infantil. Mede-se pela capacidade de informar sem expor, denunciar sem explorar e dar voz sem causar dano.
As crianças precisam de uma comunicação social livre. Mas precisam, acima de tudo, de uma comunicação social que compreenda que proteger a infância é também uma responsabilidade jornalística. Porque uma imagem pode desaparecer rapidamente do ecrã, mas as suas consequências podem acompanhar uma criança durante toda a vida.