A Operação Marquês, que envolve entre outros arguidos o antigo primeiro-ministro José Sócrates, já está muito além de ser apenas um julgamento mediático. Para quem já perdeu a noção da cronologia, a investigação começou em 2013 após um alerta da Caixa Geral de Depósitos sobre transferências monetárias para o ex-governante. José Sócrates foi detido em novembro de 2014, esteve em prisão preventiva e depois domiciliária até outubro de 2015.Desde o primeiro dia em que foi conhecida esta investigação transformou-se num “circo mediático” e processual com inúmeras ações do Ministério Público e dos advogados. A que se foram acrescentado as intervenções de José Sócrates, que sempre afirmou estar inocente dos 22 crimes de que está acusado - três de corrupção, 13 de branqueamento e seis de fraude fiscal - ao mesmo tempo que acusa o Ministério Público de perseguição.Após muitos requerimentos e decisões de tribunais superiores a recursos interpostos pelas partes, em julho do ano passado começou o julgamento. Ou seja, 12 anos depois do início da investigação.O início das audiências não acalmou todo o “circo” à volta. José Sócrates concentra as atenções e, também, ajuda, mesmo que jure que nada tem a ver com a situação, ao arrastar do julgamento e à má imagem que a Justiça está a transmitir com as constantes suspensões devido a renúncias de advogados em representar o antigo primeiro-ministro.É verdade que um advogado dizer que não quer defender uma pessoa não é ilegal, nem raro, mas no caso de Sócrates já vamos em oito causídicos e entre cada um passam dias para nomeações, apreciações e, depois, recusas. Serão meses perdidos nesta constante troca. O que, quer Sócrates queria ou não, acaba por beneficiar os acusados ao aproximar os prazos de prescrição dos crimes.Para o cidadão comum estas situações acabam por transmitir a perceção que a lei tem lacunas que bem aproveitadas ajudam os arguidos a escapar às sentenças. Numa sociedade como a atual tudo é uma questão de imagem e a da Justiça está muito maltratada - o próprio bastonário dos advogados, João Massano, o reconhece. O Governo também já deu um sinal de que há situações que têm de mudar. Por isso, aprovou no início do ano várias medidas para a Justiça incluindo uma que refere multas até aos 10 mil euros para o uso de “manobras dilatórias”, além da possibilidade de alterar o Código de Processo Penal.Nas primeiras reações, os magistrados e juízes apoiaram as ideias do Governo e os advogados criticaram.Como nada disto está em vigor, talvez se espere bom senso das partes.E eu gostaria de saber duas coisas: como pode um advogado ler e analisar, para preparar uma defesa decente, em dez dias um processo que tem mais de 140 volumes, mais de 50 mil páginas? E não devia haver respeito pelos outros 21 arguidos da Operação Marquês? À falta de respostas vamos esperar pelos próximos capítulos.