Quando a direita se esquece de o ser

Diogo Noivo

Politólogo

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Distensão e concórdia. Esta tem sido a estratégia do governo espanhol para restaurar a relação com a Catalunha após a intentona separatista de 2017, o mais sério ataque à ordem constitucional desde a transição democrática.

Indultos, amnistias, perdão parcial da dívida catalã, um novo modelo de financiamento, transferência de competências e poderes próprios do Estado Central para o Governo Regional, reforço da promoção da língua autóctone dentro e fora da Catalunha, incentivos estatais para o regresso à Catalunha das empresas que abandonaram a região após o simulacro de independência de 2017 são apenas algumas das medidas que sustentam o esforço de alegada reconciliação.

Na prática, houve (e há) mais pragmatismo do que altruísmo: sem o voto dos catalães no Parlamento, Sánchez não governa. A longa lista de cedências é, bem vistas as coisas, o preço que o PSOE pôs Espanha a pagar para que houvesse uma “maioria progressista”.

Estas e outras medidas atacam preceitos essenciais do Estado de Direito, minam as fundações da democracia parlamentar criada na década de 1970, agravam sobremaneira as desigualdades territoriais e acentuam o estatuto de excepção da Catalunha perante regiões mais pobres.

Naturalmente, tudo isto desaguou em maior polarização e acrimónia social. Mais grave: colocou a governabilidade de Espanha, país com 17 comunidades autónomas, nas mãos de uma única região. Qualquer ideia de pluralismo é mera ilusão.

O PSOE sacode as críticas argumentando que os princípios se subordinam à eficácia. Os dois partidos separatistas, a Esquerda Republicana da Catalunha e o Junts, são hoje pálidas sombras do que foram. A estratégia funcionou.

Mas a realidade é teimosa. Em 2020, surgiu um novo partido na região, a Aliança Catalana, força de direita radical populista com uma agenda que exacerba a tradicional xenofobia do nacionalismo catalão. Todas as sondagens mostram que cresce de forma notável nas intenções de voto.

São várias as explicações para a novidade, mas a principal está precisamente na debilidade do Junts, situado no espaço habitual da direita catalã.

Inebriado pelo delírio independentista, que mais não foi do que uma fuga para a frente para esconder esqueletos no armário partidário, o Junts abandonou o seu eleitorado. Esqueceu-se de ser de direita. Deixou de falar de salários, emprego, segurança, habitação, imigração e costumes. Desde que o seu líder, Carles Puigdemont, se escondeu na bagageira de um carro e fugiu para a Bélgica, trocando as bravatas pela auto-preservação, o Junts parece existir apenas como veículo para salvar a honra de separatistas caídos em desgraça.

O pior é que a salvação passa por apoiar, no Parlamento, um governo do PSOE coligado com o Sumar. Isto é, o Junts, partido da direita conservadora, tornou-se co-responsável por políticas económicas e sociais feitas pelo centro-esquerda e pela esquerda-radical. Os eleitores que se sentiam abandonados sentem-se agora traídos. Não surpreende que encontrem refúgio na direita radical populista, casa de todas as frustrações e indignações.

Sánchez nada resolveu. Fazendo fé nas sondagens, contribuiu até para um agravamento cujas consequências são ainda difíceis de avaliar. Mas não falta muito para a preia-mar: em 2027 há eleições municipais na Catalunha e legislativas em Espanha.

Porém, a principal lição parece ser para a direita. O Junts, como tantos outros partidos da direita europeia, abandonou o seu espaço vital. Quando assim é, tende a aparecer algo pior.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico.

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