Proteínas

Publicado a

Desde o início de 2022, os portugueses pagam consideravelmente mais pelo que põem no prato. Não é impressão: é aritmética. Segundo a Deco Proteste, que monitoriza semanalmente um cabaz de bens essenciais, a carne de novilho passou de 5,82 euros por quilo para mais do dobro – 12,95 euros. Os ovos subiram mais de 80%. O peixe acumulou subidas de dois dígitos, registando uma variação homóloga de 23,3% de março de 2025 a março de 2026. A inflação geral no mesmo período? Pouco mais de 15%. A diferença entre o que se paga na proteína animal e o que a inflação “oficial” registou é, ela própria, uma forma de empobrecimento silencioso.

A energia não ficou atrás. Segundo a ERSE, Portugal ocupa o 8.º lugar na gasolina 95 mais cara da União Europeia, com 56% do preço correspondente a impostos – acima da média europeia e muito acima de Espanha, onde a carga fiscal ronda os 49%. Na gasolina simples, cerca de 97 cêntimos de cada litro correspondem a taxas e impostos; no gasóleo, 84 cêntimos. Na eletricidade, o Eurostat coloca Portugal acima da média europeia mesmo descontando as diferenças de poder de compra entre países – esforço que países escandinavos como a Finlândia ou a Suécia ficam bem abaixo de suportar. Portugal apresenta 29PPS (purchasing power standard) por quilowatt-hora em paridade de poder de compra no primeiro semestre de 2025, acima da média europeia de 28,6. Em países como a Finlândia, Noruega ou Suécia, o valor fica abaixo dos 20PPS.

Os salários subiram, diz o Governo. E é verdade: o INE confirmou que a remuneração bruta mensal média atingiu os 1694 euros em 2025, com um crescimento real de 3,2%. O salário mínimo chegou aos 920 euros em 2026. Mas a média aritmética não tem fome. Para quem aufere rendimentos baixos ou médios, a fotografia compõe-se de outra forma: a renda consome o salário antes de chegarem as compras.

Sobre a habitação, o Deutsche Bank Research Institute – citado num relatório do Conselho Europeu sobre a crise habitacional europeia, publicado em outubro de 2025 – calculou que, em Lisboa, os residentes destinam 116% do salário médio ao arrendamento: o valor mais elevado da União Europeia. Em Madrid, o rácio é de 74%. Em Viena, 37%. Em Frankfurt e no Luxemburgo, 34%. No Porto, a renda média de um T1 equivale a 85% do salário líquido médio local.

O discurso oficial entoa os indicadores macroeconómicos: défice reduzido, dívida em queda, saldo positivo. Tudo real. E tudo insuficiente enquanto critério de bem-estar. As finanças públicas saneadas não pagam a dúzia de ovos, não enchem o depósito, não baixam a renda. Há uma distância crescente – e politicamente muito perigosa – entre os números que os governos celebram e o frigorífico que muitos portugueses abrem ao fim do mês.

Portugal não tem um problema de estatísticas. Tem um problema de distribuição. O crescimento existe, mas não chega a quem precisa – não na velocidade, nem na forma necessária. E quando se come menos proteína, se anda menos de carro e se paga o salário em renda, o “sucesso” torna-se uma palavra que soa cada vez mais a ironia.

Talvez aqui esteja também a explicação para a saída de Portugal da tal geração mais preparada sempre. E a vinda de muitos outros milhares, para quem a carne de novilho, a gasolina ou uma casa só para a sua família continuam por cá a parecer a mesma miragem habitual e quaisquer 200 euros que possam mandar mensalmente para Daca lá representa dois salários mínimos.

Diário de Notícias
www.dn.pt