A violência no namoro continua a ser uma realidade silenciosa, persistente e profundamente enraizada nas relações afetivas dos jovens. Não é um fenómeno novo, mas é um fenómeno que se transforma, que se adapta às dinâmicas sociais e que encontra novas formas de se manifestar - muitas vezes, tão subtis que passam despercebidas até às próprias vítimas. E é precisamente por isso que a prevenção não pode começar tarde demais. Nem pode ser delegada só na escola, nem apenas na família. É um trabalho conjunto, contínuo e urgente.Falar de violência no namoro é falar de controlo, de ciúme, de chantagem emocional, de monitorização constante, de pressão sexual, de isolamento e de todas as microformas de violência que, por serem pequenas, são tantas vezes normalizadas. São estas pequenas fissuras que, quando ignoradas, abrem caminho para formas mais graves de abuso. E é aqui que falhamos enquanto sociedade: na incapacidade de reconhecer que a violência raramente começa com um murro. Começa com um “deixa-me ver o teu telemóvel”, com um “não quero que fales com ele”, com um “se gostasses de mim, fazias isto”.A prevenção exige literacia relacional. Exige que os jovens aprendam, desde cedo, a identificar comportamentos saudáveis e comportamentos abusivos. Exige que compreendam que o amor não se mede em controlo, que o ciúme não é prova de afeto, que a invasão da privacidade não é cuidado, e que a manipulação emocional não é romântica. E esta literacia não nasce espontaneamente. Constrói-se.É por isso que a prevenção tem de começar em casa. As famílias precisam de falar sobre relações, sobre limites, sobre respeito, sobre consentimento. Precisam de ensinar, pelo exemplo, que o amor nunca se confunde com posse. E precisam de estar atentas: muitos jovens não pedem ajuda porque têm medo de dececionar os pais, de serem julgados ou de não serem levados a sério. O silêncio é sempre o maior aliado da violência.Mas a família não chega. A escola tem um papel insubstituível. É na escola que os jovens passam grande parte do seu tempo, é na escola que constroem relações, é na escola que observam modelos e dinâmicas sociais. A escola deve ser um espaço onde se fala abertamente de violência no namoro, onde se desmontam mitos, onde se ensina a pedir ajuda e onde se legitima a experiência de quem sofre. A prevenção não pode ser uma atividade pontual, uma palestra anual ou um cartaz no corredor. Tem de ser integrada no currículo, nas práticas e na cultura escolar.A violência no namoro não é um problema dos jovens. É um problema de todos nós. E enquanto continuarmos a tratar o tema como algo distante, como algo que “não acontece aqui”, estaremos a falhar na proteção daqueles que mais precisam.Porque prevenir a violência no namoro é, acima de tudo, ensinar a amar e a respeitar, sem ferir, nem magoar.