Não é muito habitual escrever duas crónicas seguidas sobre o mesmo tema. Mas desta vez tenho de continuar a escrever sobre a Prestação Social Única. E faço-o não só pela proposta do governo em si mas também por todas as peripécias a ela associadas.Há dois anos que o governo sabia que tinha de cumprir a meta do PRR de fusão de pelo menos oito prestações sociais não contributivas, com o objetivo de simplificação e maior eficiência do sistema. E sabia – a ministra Maria do Rosário Palma Ramalho disse-o várias vezes. O governo ficou a aguardar o estudo que havia sido encomendado à OCDE, ainda no tempo do governo do Partido Socialista. O estudo chegou no outono de 2025. Passados nove meses, a proposta de uma Prestação Social Única entra então no parlamento, com pedidos especiais para que seja discutida rapidamente e num processo de urgência relâmpago, sob a ameaça de Portugal perder os 620 milhões associados do PRR…Ainda no mandato anterior, a Iniciativa Legislativa de Cidadão para o alargamento da licença parental demorou 6 meses a ser discutida na especialidade, com várias audições de especialistas e entidades. E era um assunto bastante menos complexo do que a fusão de 13 prestações sociais não contributivas, todas elas de valores e critérios muito diferentes. No caso da PSU, quis-se que a especialidade fosse feita em 10 dias. 10 dias para discutir uma proposta que tem um impacto direto na vida de milhares de pessoas, muitas delas em situações especialmente vulneráveis! Os partidos da oposição exigiram que nesses 10 dias fosse possível fazer audições para se poder efetivamente avaliar a proposta e ter a noção de todo o impacto que pode ter. As audições aconteceram todas na sexta-feira dia 19. Um dia inteiro de audições onde foram ouvidos 24 especialistas, associações e entidades e ainda a Ministra do Trabalho e os seus secretários de estado. Escusado será dizer que não é assim que deve ser feito o trabalho legislativo.E mesmo com estas audições condensadas, é possível retirar uma conclusão alarmante: o governo não ouviu nem quer ouvir os especialistas com trabalho reconhecido sobre combate à pobreza nem as associações que trabalham diretamente com os beneficiários de prestações sociais. Ao longo do dia foram muitos os problemas levantados pela proposta de PSU do governo: que estigmatiza a pobreza, que não está alinhada com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, que é um recuo face ao que existe hoje de contratos de inserção, que aperta muito os critérios de acesso a prestações sociais, que não tem em conta os muitos fatores que prendem as pessoas na pobreza e que não aposta no verdadeiro acompanhamento. E alertam para os riscos: pode aumentar a pobreza envergonhada – em que as pessoas têm medo ou vergonha de recorrer a apoios sociais.Hoje serão votadas as propostas de alteração que os partidos apresentaram. Há propostas, do LIVRE e de outros partidos, em cima da mesa que garantem que haja uma Prestação Social Única mas sem os enormes problemas de exclusão que traz a proposta do governo. Mas parece-me que o PSD já escolheu que caminho seguirá: apresentou uma proposta de alteração que, em vez de ouvir os alertas dos especialistas, torna a PSU ainda mais difícil de aceder para os estrangeiros que residem em Portugal. É uma tentativa de se aproximar da extrema-direita, com quem, aparentemente, prefere mais uma vez negociar. Parece que o PSD não aprendeu nada com a farsa do Pacote Laboral e continua a querer negociar com quem lhe tira o tapete. Esta escolha sairá muito cara ao PSD. Mas o problema é que, pelo caminho, prejudica tantas pessoas, tantas famílias e polariza o país. É tudo o que a política não deve ser.