Preconceitos, estereótipos e anedotas

João Caupers

Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do 'Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça'

Publicado a

Na minha primeira estadia nos EUA, há cerca de 38 anos, um grupo de colegas que conheci em Boston, onde fazia investigação, contou-me, durante um almoço, algumas anedotas. Estranhei que várias delas começassem pela frase: A guy from Cincinnati, Ohio

Explicaram-me que a insistência naquela frase tinha origem num preconceito relativo à suposta reduzida inteligência dos cidadãos daquela cidade. Compreendi então que o cidadão de Cincinnati era o equivalente norte-americano do alentejano das nossas anedotas, do tío de Lepe das anedotas espanholas, do Chef d’État d’un pays africain francophone das anedotas francesas, ou ao escocês das anedotas inglesas.

Estas anedotas assentam em preconceitos (não sei se haverá algo mais humano do que um preconceito): a pouca inteligência de uns, a avareza de outros, etc. Estes preconceitos conduzem, por via da generalização, ao estereótipo e este à caricatura. E ao riso.

É certo que o riso pode ser perigoso. Tanto que Umberto Eco, no seu magistral O Nome da Rosa, dedicou várias páginas ao debate teológico medieval em torno da difícil questão de saber se Deus ria. Mas não me consta que alguém tenha sido preso por rir – ou por ter causado o riso de outrem.

Em sucessivas viagens aos EUA fui assistindo à agonia prolongada das anedotas, às mãos dos carrascos do politicamente correto. Anedotas divertidas de polacos, de italianos, de hispânicos ou, sacrilégio supremo, de negros e de judeus foram soterradas, sob toneladas de virtudes cívicas – igualdade, respeito, dignidade –, falta de sentido de humor e, mais tarde, wokismo cancelatório. Curiosamente, sábias e irresistíveis anedotas de judeus subsistem, contadas ou escritas por eles, numa superior e surpreendente – consideradas as terríveis vicissitudes da sua história – capacidade de rirem de si próprios.

Mais tarde, foram desaparecendo outras anedotas. A morte das anedotas de loiras ou de carecas, por exemplo (a cor do cabelo, nas mulheres, e a falta dele, nos homens, parecem ser assuntos relevantes) traduz a inesperada vitória dos temas capilares sobre o sentido do ridículo. Também as anedotas de gordos foram proscritas.

E, numa manifestação de caricato radicalismo antirriso, até as anedotas de animais foram consideradas inconvenientes!

Chegámos a um ponto em que uma boa anedota é contada num tom de voz adequado a quem conspira contra o governo, depois de alguns segundos de olhar em volta, para se certificar de que não há ninguém que possa sentir-se ofendido se a ouvir – e compreender!

As únicas anedotas bem-vindas parecem ser as que não brincam com desgraças humanas, com a existência de Deus e as crenças religiosas, com defeitos físicos, com a velhice, enfim, as que não ofendem ninguém. Infelizmente, não têm graça nenhuma e não fazem ninguém rir.

Eis um exemplo de anedota politicamente correta.

Diz o gin para a cerveja: és quase tão fraca como o chá de menta.

Responde a cerveja: mas faço o serviço sem necessitar de tónica!

Diário de Notícias
www.dn.pt