A taxação dos lucros extraordinários das petrolíferas, solicitada pelos governos de Portugal, Espanha, Itália, Alemanha e Áustria à Comissão Europeia, é apresentada como resposta à crise do custo de vida. Compreendo e até acompanho a medida – num contexto em que famílias e empresas enfrentam aumentos contínuos, é legítimo exigir mais de quem mais lucra. Mas não é suficiente. E, mais grave, arrisca ser apenas um álibi político para evitar o debate que realmente importa: o controlo de preços.Taxar lucros não baixa o preço dos combustíveis, não reduz a conta do supermercado, não alivia o bolso de quem vive com o orçamento no limite. É no fundo uma medida sem qualquer garantia de que esse dinheiro reverta para quem está a pagar a crise: as famílias e as pequenas e médias empresas. Um Estado sem consignação de receita, tanto pode financiar direitos fundamentais, como acabar a sustentar políticas que pouco ou nada têm a ver com o custo de vida.Há aqui uma contradição evidente que não pode ser ignorada. Quando os governos falam em “lucros excessivos”, estão a admitir o óbvio: há preços excessivos. Então por que razão recusam discutir a única medida que teria impacto direto e imediato – o controlo de preços?O tema é tratado como um tabu, quando devia estar no centro do debate. Não apenas nos combustíveis, mas também no cabaz alimentar, onde os aumentos têm sido, em muitos casos, absolutamente desproporcionais.A subida dos combustíveis alimenta toda a cadeia: encarece a produção, encarece o transporte, e abre espaço a uma espiral especulativa que ninguém parece disposto a travar.No caso dos combustíveis, a situação é ainda mais gritante. Parte significativa do que hoje pagamos a preços recorde corresponde a stocks adquiridos a valores muito mais baixos e não à subida de preços resultante da Guerra no Médio Oriente. Não é apenas mercado – é margem especulativa, o que levanta uma questão ética: até que ponto estamos a aceitar lucros que não são apenas elevados, mas injustificáveis?Perante isto, taxar é fácil. Difícil é mexer nos preços. Difícil é enfrentar interesses instalados. Difícil é assumir que o mercado, por si só, não está a proteger os consumidores.Mas este debate não pode ficar por aqui. A crise expõe algo mais profundo: a dependência estrutural da Europa de combustíveis fósseis e a ausência de uma estratégia séria de transição energética. Prefere, pelo contrário, investir numa economia de guerra.Está na altura de escolher um caminho diferente. Apostar nas energias renováveis, reduzir dependências, encurtar circuitos de produção e valorizar a economia local. Construir um modelo mais justo e mais resiliente.Taxar lucros pode ser necessário. Mas não chega. Enquanto não houver coragem para travar os preços, continuaremos a tratar os sintomas - e a ignorar a doença.