A diplomacia tem uma relação particular com o tempo: chegamos a cada destino sabendo que um dia teremos de partir. No entanto, sabê-lo não torna mais simples o momento da despedida. Depois de quatro anos como Embaixadora do Chile em Portugal, termina para mim uma etapa intensa no plano profissional, e profundamente significativa no plano pessoal. Cheguei com o privilégio e a responsabilidade de representar o Chile; parto com a satisfação pelo trabalho realizado, com novas aprendizagens e, sobretudo, com um sentimento de profunda gratidão.
Portugal terá sempre um lugar singular no meu percurso. Foi o meu primeiro destino como Embaixadora, depois de muitos anos de carreira diplomática ao serviço do Chile. Aqui aprendi, de uma forma nova, o que significa liderar uma equipa, representar o país nos mais diversos âmbitos e transformar uma relação bilateral sólida numa agenda capaz de olhar para o futuro. Mas Portugal ensinou-me também algo que não consta dos manuais diplomáticos: podemos chegar a um país para desempenhar uma função e partir ligados a ele por vínculos que transcendem amplamente essa função.
O Chile e Portugal parecem, no mapa, países distantes. Na experiência quotidiana, essa distância torna-se muito menor. Une-nos o oceano e uma relação profunda com o mar; uma vocação de abertura ao mundo; a confiança no diálogo, na democracia, no multilateralismo e na cooperação internacional. Unem-nos também desafios partilhados: a proteção dos oceanos e do ambiente, a transição energética, as energias renováveis e a procura de um desenvolvimento sustentável que concilie crescimento, inovação e responsabilidade para com as gerações futuras.
Durante estes quatro anos procurámos aprofundar a relação política, económica e comercial e, ao mesmo tempo, abrir novos espaços de colaboração. Cada reunião, visita, projeto e iniciativa teve um propósito comum: aproximar ainda mais dois países que partilham valores e que podem fazer muito juntos. Num cenário internacional cada vez mais complexo, o Chile e Portugal têm uma coincidência essencial: a convicção de que os grandes desafios não conhecem fronteiras e de que as respostas duradouras se constroem através da cooperação, do diálogo e da capacidade de alcançar consensos.
A cultura ocupou um lugar especialmente querido no nosso trabalho. Quisemos que o Chile estivesse presente em Portugal não apenas através da diplomacia institucional ou dos intercâmbios económicos, mas também por meio dos seus escritores, artistas e criadores. A cultura tem uma capacidade extraordinária para encurtar distâncias e permitir que duas sociedades se reconheçam mutuamente. E entre o Chile e Portugal, poucas expressões criaram pontes tão naturais como a literatura e a poesia.
Nesse diálogo há uma figura chilena que possui uma ressonância particular: Gabriela Mistral. Muito antes de receber o Prémio Nobel da Literatura, Mistral foi diplomata e exerceu funções consulares em Lisboa entre 1935 e 1937. A sua passagem por Portugal recorda-nos que a relação entre os nossos países também se fez através das palavras e do serviço público. Para uma diplomata chilena, despedir-se hoje de Lisboa significa inevitavelmente sentir a presença dessa história: a de uma mulher que representou o Chile e que fez da literatura outra forma de criar pontes entre os povos.
Portugal, por sua vez, acompanhou-me também através das suas grandes vozes. Fernando Pessoa fez de Lisboa um território literário universal: uma cidade de múltiplos olhares, identidades e perguntas. José Saramago, com a sua forma inconfundível de observar o poder, a dignidade humana e as nossas responsabilidades coletivas, levou a língua portuguesa a leitores de todo o mundo. Mistral, Pessoa e Saramago pertencem a tradições distintas, mas os três recordam algo essencial para a diplomacia: compreender o outro exige curiosidade, imaginação e a disponibilidade para olhar o mundo a partir de mais do que uma perspetiva.
Talvez por isso sinta que o Chile e Portugal partilham também uma certa sensibilidade perante a memória, a distância e os afetos. Nestes anos, aprendi a aproximar-me de uma palavra portuguesa difícil de traduzir: saudade. Não é simplesmente nostalgia. É a consciência de uma ausência que permanece ligada àquilo que se amou. Ao despedir-me de Portugal, essa palavra adquire para mim um significado muito concreto.
Nada do que foi realizado teria sido possível sem as pessoas. Agradeço ao Governo de Portugal e, muito especialmente, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo acolhimento, pela confiança e pela permanente disponibilidade para o diálogo. Agradeço aos meus colegas do Corpo Diplomático, com quem partilhei trabalho, conversas e amizades. E agradeço de forma muito especial à equipa da Embaixada do Chile: um grupo profissional, empenhado, solidário e generoso, cujo esforço tornou possível cada avanço alcançado durante estes anos.
O meu agradecimento estende-se também à comunidade chilena residente em Portugal. Encontrar-me com os seus membros foi uma forma de reencontrar o Chile à distância. Cada chilena e cada chileno que aqui construiu uma vida, uma família, um projeto profissional ou um novo caminho contribui, a partir da sua própria experiência, para estreitar a relação entre os nossos países. Escutá-los, acompanhá-los e conhecer as suas histórias foi uma das dimensões mais gratificantes da minha missão.
Ao encerrar esta etapa, olho para o futuro com a mesma vocação de serviço e o mesmo sentido de responsabilidade que me acompanharam quando cheguei a Lisboa. Mas há algo que nenhuma experiência posterior poderá alterar: Portugal será sempre o país onde tive, pela primeira vez, a honra de representar o Chile como Embaixadora.
Levo comigo Lisboa e a sua luz; o Atlântico; os lugares que conheci; as conversas e os projetos partilhados. Levo, sobretudo, as pessoas e essas pequenas recordações da vida quotidiana que nunca aparecem num relatório diplomático, mas que, com o tempo, acabam por ser as mais nítidas. Parto satisfeita por ter contribuído, juntamente com tantos outros, para estreitar a relação entre o Chile e Portugal, e convencida de que esse vínculo continuará a crescer nos âmbitos bilateral e multilateral, na economia, na sustentabilidade, na cultura e na criação.
Hoje despeço-me de Portugal como Embaixadora do Chile, mas não me despeço de Portugal. Sei que voltarei. Há países que visitamos e há outros que, quase sem darmos por isso, acabam por fazer parte da nossa própria história. Para mim, Portugal será sempre um deles. Se tivesse de resumir estes quatro anos numa só palavra, seria gratidão: a Portugal, por me ter acolhido com tanta generosidade; ao Chile, por me ter confiado a honra de o representar; e a todas as pessoas que fizeram desta missão uma experiência profissional e humana inesquecível. Levo Portugal no coração.
Lisboa, 2 de Setembro de 2026.