Dois anos depois do início deste ciclo governativo, o país deveria hoje apresentar sinais claros de mudança. Não a ilusão criada por anúncios sucessivos, mas resultados concretos que se traduzissem na vida dos portugueses. Dois anos deveriam ser suficientes para definir um rumo, estabelecer prioridades e iniciar reformas estruturais. Mas o essencial permanece por fazer.O balanço destes dois anos expõe uma fragilidade que se tornou evidente: em Portugal, governa-se ao ritmo dos acontecimentos, sem capacidade de antecipação. Multiplicam-se anúncios, acumulam-se iniciativas e produz-se legislação, mas falta coerência e direção estratégica. O resultado é um país que permanece refém de problemas estruturais antigos, sucessivamente adiados em vez de resolvidos.Na habitação, a situação agravou-se de forma evidente, tornando-se hoje um dos principais fatores de instabilidade social, sobretudo entre os mais jovens. O acesso à casa continua longe de ser uma realidade para muitas famílias, enquanto as respostas apresentadas ficam aquém da dimensão do problema.Na saúde, persistem fragilidades que colocam em causa a capacidade de resposta do sistema. Profissionais sobrecarregados, serviços em rutura e dificuldades de acesso mostram que o problema não é conjuntural, é estrutural.Na economia, o país continua a crescer abaixo do seu potencial. A ausência de ambição reformista, aliada a uma carga fiscal excessiva, compromete a competitividade, afasta o investimento e limita a capacidade de gerar riqueza de forma sustentada.Mas há um outro tema que se impôs com particular relevância ao longo destes dois anos: a segurança. Portugal, tradicionalmente reconhecido como um país seguro, começa a enfrentar sinais que não podem ser ignorados. O aumento da perceção de insegurança, aliado a episódios que inquietam os cidadãos, exige respostas firmes e uma estratégia clara. A segurança não é um detalhe é um pilar fundamental do Estado e uma condição essencial para a qualidade de vida.Ignorar este problema, desvalorizá-lo ou tratá-lo como uma questão secundária é um erro político grave. Os portugueses querem sentir-se seguros nas suas cidades, nas suas freguesias, no seu dia a dia. E essa exigência é legítima, e aqui também tem faltado visão e determinação.A tudo isto soma-se um problema de fundo: a ausência de uma estratégia clara para o país. Não se percebe qual é o modelo de desenvolvimento que se pretende, nem que reformas estruturais estão verdadeiramente em curso. Governa-se o presente, mas não se constrói o futuro.E, quando assim é, os portugueses sentem-no. Sentem-no no custo de vida, na dificuldade em aceder a serviços públicos de qualidade, na falta de perspetivas.Mas estes dois anos trouxeram também um outro sinal político que não pode ser ignorado: o crescimento do partido Chega. Num contexto de desgaste dos partidos tradicionais e de desconfiança crescente, este tem se afirmado como uma força política cada vez mais representativa. Cresceu, consolidou a sua presença institucional e tornou-se uma voz incontornável no debate político nacional.Dois anos depois, o desafio é claro: não basta continuar a fazer mais do mesmo. Portugal precisa de reformas estruturais, de políticas que valorizem o trabalho, que incentivem o investimento e que reforcem a segurança. Precisa de um Estado mais eficiente, mais próximo e mais responsável.Precisa, acima de tudo, de liderança. Porque governar não é apenas gerir o presente. É preparar o futuro. E esse continua a ser o maior défice destes dois anos.