“Tiveste gente de muita coragemE acreditaste na tua mensagemFoste ganhando terrenoE foste perdendo a memóriaJá tinhas meio mundo na mãoQuiseste impor a tua religiãoE acabaste por perder a liberdadeA caminho da glóriaAi, Portugal, PortugalDe que é que tu estás à espera?Tens um pé numa galeraE outro no fundo do marAi, Portugal, PortugalEnquanto ficares à esperaNinguém te pode ajudar”Jorge Palma (Faço aqui o tradicional disclaimer, mas enquanto Sportinguista confessa: apesar de não acreditar em milagres, espero um no corrente dia. Acima de tudo, espero que o Sporting não se volte a comportar como actualmente se encontra o povo português: sentado de pantufas num qualquer sofá, perdido entre espectáculos deprimentes e sem qualquer capacidade de reacção.) Os dias correm e em cada um deles somos surpreendidos com uma classe política que, claramente, não se porta à altura daquilo que lhes seria exigível, ainda que em termos mínimos.Passe-se à frente do que se tem vindo a saber quer dos eleitos, quer dos nomeados do partido Chega, desde logo porque não têm o encanto da novidade e os exemplos actualmente mais mediáticos são caricaturais, já que dali os mais atentos saberão que tudo é possível. Nos dias que correm, fomos, por exemplo, confrontados com Montenegro a assumir ter lançado mão de juristas públicos, ou seja, pagos com o dinheiro dos contribuintes, para fazerem pareceres sobre uma questão que, queira ou não, se prende com a sua actividade privada. O que parece certo é que, independentemente da cor partidária, mais com maior enfoque no Chega, no PSD, no PS e no CDS, o que não falta no nosso país são suspeitos, arguidos e até condenados, não se coibindo de continuarem a candidatar-se a Distritais ou a outros órgãos, a exercerem cargos públicos, representando o nosso País e usando, algumas vezes a seu bel-prazer, o dinheiro dos nossos impostos em proveito próprio. De escândalo em escândalo, seja no que se reporta a assessores acusados de pedofilia ou de cabeleireiras com alegada aptidão para espaços verdes, seja quanto a eleitos igualmente condenados por crimes que, se não os envergonham, pelo menos não honram o País.Tudo, perante uma mais do que aparente resignação de todos os que efectivamente, no seu dia-a-dia e com a elevada carga fiscal que temos, vão levando a sua vida honestamente e, com isso, fazendo evoluir o País, usando estes casos como mero entretimento e como escape e sem que percebam que é isso que nos está a minar a todos.Daí que façam cada vez mais sentido, além da poesia cantada de Jorge Palma já avançada, as palavras de Vergílio Ferreira, quando aludia a que “frente a uma situação difícil, o Português opta pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota. O grave disto é que o milagre não vem e a anedota descomprime de tudo. Ficamos assim à mercê do azar e nem restos de razão para mexer um dedo”. E, de facto, não temos tido muita sorte.A pergunta seguinte é se existe vontade para alterar este estado de coisas e como. Ora, apesar de vigorar (e bem!) em Portugal o Princípio da Presunção de Inocência, para este tipo de cargos públicos o escrutínio terá de ser muito maior e, por exemplo, a legislação alterada, quer no sentido de proibir condenados por crimes graves de exercerem tais cargos, quer no mais exigente sentido de se proibir igualmente que, uma vez proferido despacho de acusação, os autos sejam do conhecimento público, o que é diverso de serem de acesso permitido, a requerimento sujeito a crivo do juiz.Outra medida relevante seria, por exemplo, transformar fraudes eleitorais internas em crime, o que, até à presente data, não sucede, desde logo porque quem engana os do seu próprio partido, com maior facilidade o fará a terceiros incautos.Para se moralizar este estado de coisas, em que se banalizou o mal, ao ponto de o transformar em mera anedota, já não bastam lamentos ou uma indignação rápida, expressa em redes sociais.Ao contrário de muitas leis que são alteradas, muitas vezes apenas para se fingir que se resolveu um problema, estes sucessivos casos merecem, de facto, que a criminalização de quem nos representa se apresente diversa, mais célere, mas, acima de tudo, muitíssimo mais eficaz. É que, no final do dia, enquanto uns enriquecem estranhamente, a população paga a factura e paga-a demasiado cara para o (triste) espectáculo que é oferecido.E, se não formos nós, cada cidadão, um por um, a exigir, como diz acertadamente Jorge Palma, “ninguém nos vai ajudar”. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico