Portugal: mais do que ponte, exportar resiliência

Sofia Santos

PhD, CEO da Systemic

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Discutir financiamento climático sem discutir capacidade de execução é, hoje, um exercício incompleto. O problema já não está apenas na escassez de recursos, mas na forma como esses recursos são estruturados, mobilizados e transformados em impacto real. E é neste ponto que Portugal pode — e deve — assumir um papel mais ambicioso.

O encontro que terá lugar no próximo dia 13 de maio, no ISEG, em Lisboa, dedicado á discussão de como o financiamento climático pode promover as economias dos PALOP, é um bom exemplo dessa possibilidade. Ao juntar especialistas do Green Climate Fund, do Global Green Growth Institute e da do World Resources Institute, entre outros, não se limita a promover mais um debate. Mostra que Portugal pode posicionar-se como um espaço de encontro entre quem financia, quem implementa e quem inova. E isso faz toda a diferença. Aliás, esse espaço já existe há 5 anos, com os encontros anuais da Tagus Roundtable que ocorrem no ISEG desde 2022.

Durante demasiado tempo, olhámos para o financiamento climático como uma obrigação externa ou como um tema distante da realidade económica nacional. Mas essa leitura está ultrapassada. Hoje, a capacidade de estruturar financiamento para projetos sustentáveis — sobretudo em contextos mais vulneráveis — é também uma oportunidade estratégica. Não apenas para os países africanos, mas para o próprio posicionamento da economia portuguesa, uma vez que existem empresas nacionais com competência de tecnologia e conhecimento sobre financiamento climático e estruturação de políticas e projetos, que podem não só promover as economias africanas como a economia Portuguesa.

Existe, aliás, um ativo que tendemos a subvalorizar: o conhecimento já acumulado em Portugal. Nos últimos anos, foi desenvolvida experiência relevante na criação de instrumentos financeiros, na colaboração com instituições multilaterais e na adaptação de modelos a contextos complexos. Este conhecimento, quando colocado ao serviço dos PALOP, pode contribuir para criar economias mais resilientes, mas também mais justas — mais alinhadas com as necessidades reais das populações.Portugal poderia ser um hub de financiamento climático apoiado em tecnologia desenvolvida a nível nacional, usando as empresas que já trabalham nestas áreas. Soluções tecnológicas desenvolvidas em Portugal, nomeadamente na análise de risco e na monitorização de fenómenos climáticos, têm hoje potencial para reforçar a resiliência de setores críticos como a agricultura nos PALOP. A articulação entre financiamento, políticas públicas e tecnologia deixa de ser conceptual e passa a ser concreta.

Mas há um outro aspeto que importa sublinhar. Nem todo o conhecimento relevante está no chamado Norte global. Pelo contrário. Países africanos e várias regiões da Ásia têm décadas de experiência na gestão de eventos climáticos extremos, no desenvolvimento de mecanismos de seguros agrícolas e na criação de soluções para contextos de elevada vulnerabilidade. Essa experiência é particularmente valiosa num momento em que Portugal enfrenta riscos crescentes associados a secas, incêndios e instabilidade agrícola.

A cooperação, neste contexto, já não pode ser vista como um fluxo unilateral. Tem de ser entendida como um processo de aprendizagem mútua. Portugal pode contribuir com financiamento estruturado e inovação tecnológica. Mas também pode — e deve — aprender com quem já lida há muito mais tempo com estes desafios.

É nesta interseção que reside a verdadeira oportunidade. Não apenas financiar projetos, mas construir modelos de desenvolvimento mais resilientes, mais adaptados e, sobretudo, mais eficazes. Modelos que façam sentido para os PALOP, mas que também possam reforçar a própria capacidade de resposta de Portugal.

A transição e adaptação climática não será definida apenas por metas internacionais ou compromissos políticos. Será definida pela capacidade de transformar conhecimento em ação. E, nesse processo, Portugal tem condições para ser mais do que um intermediário.

Pode ser parte da solução.

PhD, CEO da Systemic

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