Portugal e Índia: não é a Índia que se adapta

Maria Rita Melo

Médica consultora, fundadora OXIR Healthcare (oxir.io), certificada em AI for Healthcare (MIT/Harvard Medical School)

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“Mas como é possível estar noiva por duas vezes e não haver casamento?”, perguntei eu a uma das mulheres mais inteligentes que conheci, indiana, com um percurso académico e humano difícil de igualar, já com experiência suficiente para saber que, quando se trata de homens, a previsibilidade não é um defeito, é um padrão. A resposta foi sempre a mesma: “Amo-te, mas és demasiado inteligente. Não consigo viver o resto da minha vida com uma mulher tão inteligente.” Sorri, não pela dor, mas pela consistência estatística da resposta. Há qualquer coisa de profundamente tranquilizador na incapacidade masculina de inovar em momentos críticos. Dois noivados terminados com a mesma explicação, sem variação, sem esforço criativo e depois ainda se questiona a vantagem evolutiva da inteligência. Guardei esta história durante anos. Hoje percebo que ela explica mais sobre o mundo do que sobre relações, explica o que acontece quando se subestima a inteligência de quem está à nossa frente.

Passados alguns anos, vejo-me a consultar trabalhadores indianos de uma fábrica aeronáutica do Grupo Wipro Aerospace (actual WiproLauak),um dos maiores grupos tecnológicos da Índia, onde a engenharia de precisão convive diariamente com a ambição de uma potência tecnológica em ascensão. Nesta relação médica‑doente, aprender a lidar com discursos altamente eruditos e comunicações erráticas dentro da mesma comunidade tornou a adaptação cultural e linguística uma condição essencial para que haja confiança e eficácia. Um simples questionário pré‑consulta em hindi pode ser mais eficaz do que longas explicações mal compreendidas; não é inclusão, é inteligência prática para o bem‑estar.

Há quatro anos, vi indianos descalços nos seus dias de folga da apanha da uva no Alentejo, a jogar críquete com paus improvisados durante horas, creio que de estômago vazio, sorridentes e em paz. Usavam um campo de futebol da junta de freguesia, vazio a maior parte do ano. Esses grupos indianos deram-lhe vida. Uns quarteirões mais à frente, portugueses e outros europeus secavam ao sol com litros de cerveja e tabaco, a contribuir generosamente para as minhas futuras consultas. Na mesma terra alentejana, esse mesmo povo criticava os indianos. Mas quando abriu um “market” gerido por indianos com a cerveja mais barata do que a do café central, os portugueses passaram a adorar o market. Empreendedorismo puro, identificaram a necessidade, serviram-na pelo preço mínimo e expandiram para batata doce, farinha e pensos higiénicos. Achei magnífico, havia ali estratégia, solução para o problema e lucro para a comunidade indiana.

Segundo a Gapminder, que nos ajuda a abandonar a pobreza intelectual da divisão entre países “desenvolvidos” e “em desenvolvimento” e define quatro níveis: Portugal vive no nível 4, grande parte da Índia ainda se situa nos níveis intermédios, com muita população no nível 2 e em transição para o 3. Mas estes níveis, embora essenciais para nos orientarem, podem também camuflar aquilo que mais interessa – o poder tecnológico, demográfico, cultural e estratégico de um país. A Índia pode ser estatisticamente mais pobre do que Portugal em muitos indicadores, mas quem olhar apenas para isso talvez esteja a cometer o erro clássico dos que olham para o primeiro quadrado do tabuleiro de xadrez e riem do único bago de arroz.

A lenda indiana é conhecida: um bago de arroz no primeiro quadrado, dois no segundo, quatro no terceiro, oito no quarto, duplicando sempre até ao último dos 64 quadrados – no fim existem 18.446.744.073.709.551.615 bagos de arroz, o suficiente para cobrir toda a Índia com uma camada de dezenas de centímetros. O crescimento exponencial tem esta característica desconfortável, que só parece pequeno até deixar de ser ignorável e talvez esse seja o maior erro de análise quando olhamos para a Índia.

Não nos esqueçamos de que, em 2020, nas eleições na Índia, Manoj Tiwari, presidente do Bharatiya Janata Party em Deli, surgiu em discursos de campanha que pareciam perfeitamente reais, em inglês e em dialecto hindi local, mas parte desse conteúdo era sintético, gerado por Inteligência Artificial, um deepfake político antes de muitos europeus sequer perceberem que os deepfakes seriam uma das armas informativas do século. Durante anos falou-se da Rússia, dos Estados Unidos, da China. A Índia já estava a fazê-lo. Talvez em silêncio. Talvez sem pedir licença ao nosso espanto.

Se estivermos atentos, a Índia tem um programa de autossuficiência, Atmanirbhar Bharat, para tornar a tecnologia indiana uma realidade estratégica, com parcerias no Japão em Inteligência Artificial e robótica, com Israel em drones e veículos aéreos não-tripulados, e com uma população jovem, dinâmica, empreendedora e atenta aos problemas do mundo, caminhando para tornar o país uma das maiores economias do mundo, ao lado dos Estados Unidos, da China e da União Europeia. Em 2030, as projeções apontam para que a Índia ultrapasse o Reino Unido, a Alemanha e o Japão e se torne a 3.ª maior economia do mundo, com um PIB em torno dos 7 biliões de dólares; e há quem antecipe que, em 2050, a economia indiana possa rondar os 30 biliões de dólares.

E nós, portugueses, ainda questionamos o valor da Índia quando se aproxima o futuro Acordo UE-Índia. Às vezes sinto que a nossa resistência tem menos a ver com análise e mais com inveja e medo. Mas como escreveu Séneca: “deixa de ter esperança e deixarás de ter medo” – uma verdade dura, mas útil, porque ensina-nos a aceitar o agora, o presente. A Índia não tem medo. Atua com a sua tecnologia que redesenhou o poder. Os novos impérios não precisam de território físico, mas de dados, escala e capacidade de execução. E a Índia está nesse jogo. Portugal tem agora uma oportunidade rara, não de competir diretamente, mas de colaborar de forma inteligente. Mas colaboração exige algo que nem sempre nos é confortável, adaptação.

Porque há uma ideia que convém aceitar com alguma humildade, a Índia não se vai adaptar a Portugal. Nós é que, se quisermos ter sucesso com a Índia, teremos de ir ao encontro da sua cultura, compreendê-la, respeitá-la e unificar forças, não como submissão, mas como estratégia. Porque o tempo de vida humana é um instante e talvez o maior erro seja desperdiçá-lo a resistir ao que já está claramente a acontecer.

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