O país vive um momento decisivo. Os sinais acumulam-se: pressão sobre as famílias, serviços públicos em rutura e uma sensação crescente de bloqueio institucional que há muito se instalou em Portugal. Não se trata apenas de dificuldades conjunturais, mas de um problema estrutural que atravessa décadas e que hoje se tornou impossível de ignorar.Nos últimos meses, os portugueses têm sentido de forma clara o peso das decisões políticas. O aumento do custo de vida, com destaque para o cabaz alimentar e para os combustíveis, está a asfixiar famílias e empresas. Portugal está entre os países europeus onde mais subiram os preços da energia, enquanto o Estado continua a arrecadar receitas significativas com impostos indiretos, mesmo em contexto de crise internacional.Ao mesmo tempo, assistimos a um cenário preocupante na Saúde. Serviços de urgência encerrados, falta de profissionais e cidadãos obrigados a percorrer dezenas de quilómetros para acederem a cuidados básicos são hoje uma realidade em várias regiões do país. Aquilo que deveria ser uma prioridade absoluta transformou-se num exemplo claro de falha do Estado.Mas talvez o problema mais profundo seja outro: a perceção de que o aparelho do Estado permanece fechado sobre si próprio. Como tem sido denunciado, existe uma ocupação prolongada de estruturas-chave, reguladores, tribunais, conselhos superiores, por um mesmo circuito de poder que se perpetua há décadas. Esta continuidade não é apenas política, é também institucional e condiciona a capacidade de reforma.O resultado é um país onde mudar se tornou difícil. Onde as decisões estruturais são frequentemente adiadas e onde as respostas surgem tarde e de forma insuficiente. A discussão recente em torno de medidas concretas, como o IVA Zero no cabaz alimentar, a suspensão da taxa de carbono ou apoios à energia para setores essenciais, revela precisamente essa incapacidade de agir com rapidez e eficácia.Ao mesmo tempo, episódios como reformas milionárias no setor público contrastam com a realidade de milhares de portugueses que vivem com pensões mínimas, reforçando um sentimento de injustiça que não pode ser ignorado. Quando o esforço não é repartido de forma equilibrada, a confiança nas instituições fragiliza-se.No entanto, este momento traz também uma oportunidade. Pela primeira vez em muitos anos, existe uma maioria sociológica e política que exige mudança. Uma mudança que não se limite a alternâncias de poder, mas que vá ao fundo das instituições e do funcionamento do Estado.Portugal precisa de transparência, de renovação e de coragem política. Precisa de romper com práticas instaladas e de devolver aos cidadãos a confiança num Estado que funcione para todos, e não apenas para alguns.A questão é simples, mas decisiva: vamos continuar a aceitar este modelo ou estamos finalmente preparados para o transformar? O futuro do país depende da resposta.