Este Governo apresentou-se aos portugueses com uma promessa clara: vinha combater o socialismo que sufocou o país durante oito anos, vinha reformar o que a esquerda deixou parado. Foi nessa base que ganhou duas eleições seguidas. Foi nessa base que teve a confiança dos portugueses. Mais de dois anos depois, entre reformas que continuam por fazer, crises mal geridas e ministros envolvidos em polémicas, uma sondagem publicada esta semana confirma o que já se sentia: a maioria dos portugueses não vê neste Governo capacidade para reformar. Não vou repetir aqui cada episódio, já escrevi sobre eles. O que importa agora é o que esta incapacidade nos está a custar.Portugal cresce pouco. O Banco de Portugal projeta 1,8% este ano e uma nova desaceleração em 2027, e diz sem rodeios que essa travagem reflete o fim do PRR e o abrandamento do investimento que lhe está associado. Bruxelas já reviu em baixa as suas próprias previsões, para 1,7% em 2026. É uma economia a crescer devagar demais para o que precisa, com o motor que tem sustentado esse crescimento modesto nos últimos anos, o investimento público alimentado pelos fundos europeus, a apagar-se.Portugal já recebeu mais de 167 mil milhões de euros em fundos europeus desde a adesão, há quatro décadas. Sucessivos Quadros Comunitários de Apoio, depois o Portugal 2020, depois o Portugal 2030. A convergência continua a ser uma miragem e chegámos a financiar até 80% do investimento público só com dinheiro de Bruxelas. Portugal não aprendeu a crescer com o dinheiro da Europa, aprendeu a viver dele. E esse dinheiro está a acabar. O PRR, que fecha este ano, não foi exceção a esta história, foi mais um capítulo dela: outra almofada generosa, outra oportunidade de reformar com rede de segurança e outra vez resultados que ficam muito atrás do que o cheque justificava.A seguir vem o próximo quadro financeiro da União Europeia, para 2028-2034, e todas as projeções em discussão, ainda que variem entre si, apontam na mesma direção: menos coesão, menos agricultura, mais defesa e competitividade. Portugal vai receber menos, não mais. A almofada que amorteceu duas décadas de reformas adiadas está a ficar mais fina, exatamente quando seria preciso mais capacidade para decidir sem ela.É este o cruzamento que devia assustar mais do que qualquer sondagem: um país com crescimento anémico, uma janela de financiamento europeu a fechar-se, e um Governo que, tendo prometido ser reformista, tem mostrado a mesma incapacidade que criticou durante oito anos. Sem reformas feitas agora, com o dinheiro que ainda existe, a produtividade não sobe por decreto quando o financiamento acabar. Cresce-se ainda mais devagar, com menos margem orçamental, e o ajuste que hoje se pode fazer com fundos europeus a pagar parte da fatura terá de ser feito depois só com impostos dos portugueses.Qual será o destino do país se esta oportunidade também for desperdiçada, não tenho uma resposta confortável para dar. Tenho a certeza de que não vai haver outra janela parecida com esta tão cedo. A IL continua a apresentar propostas concretas precisamente porque a alternativa a reformar agora é reformar mais tarde, com menos dinheiro e menos tempo, pagando o preço todo com o crescimento que já não temos a mais.Um Governo que se diz reformista tem de escolher: usa o tempo e o financiamento que ainda tem, ou junta-se à longa lista de governos portugueses que prometeram mudança e entregaram desculpas.