A história deste feriado remonta ao dia 1 de Maio de 1886, quando uma greve foi iniciada na cidade norte-americana de Chicago, com o objectivo claro e declarado de conquistar melhores condições de trabalho, principalmente no que se reporta à redução da jornada de trabalho diária, que chegava a atingir as 17 horas, para 8 horas. Durante a manifestação, houve confrontos com a polícia, resultando em prisões e mortes de trabalhadores1.
Foi este o evento que serviria de inspiração para muitas outras manifestações que se seguiriam em diversas geografias e que viriam a culminar na fixação de um conjunto de direitos, entre os quais a duração máxima da jornada de trabalho que, na maior parte dos países ditos industrializados, foi fixada em oito horas.
Por exemplo, até hoje, e fruto do resultado de alguns dos protestos seguintes, os Estados Unidos da América recusam-se a reconhecer a data como o Dia do Trabalhador, enquanto em Portugal o Dia do Trabalhador é celebrado desde 1890, pese embora durante a ditadura do Estado Novo a comemoração fosse violentamente reprimida pela polícia. Só a partir de maio de 1974, após a Revolução dos Cravos, é que se voltou a comemorar livremente o Primeiro de Maio, que passou a ser feriado.
Conhecendo os eventos que deram início a esta comemoração, a pergunta com que se iniciam estas linhas está praticamente respondida.
Obviamente, mesmo antes da programada mudança do Código do Trabalho, cada vez faz mais sentido comemorar o 1.º de Maio. Se pensarmos que a luta se iniciou por uma jornada de trabalho de 8 horas, a indagação seguinte é quantos de nós a conseguimos cumprir, não obstante as múltiplas tecnologias que nos prometeram aliviar o dia a dia.
No mundo do trabalho, e ao contrário do prometido, os avanços tecnológicos têm imposto ritmos muito mais acelerados e horas de trabalho extraordinário, muitas vezes não-declaradas, além de uma muito maior fluidez entre a vida profissional e a pessoal. A pretensa facilitação que nos prometeram transformou-se na imposição de responder a tudo de forma rápida, na obrigação implícita de o fazermos a qualquer momento e na padronização da forma como reagimos e nos comportamos. Esta padronização, por seu turno, torna-nos mais facilmente domesticados, quanto mais não seja controlados por algoritmos, cujo objectivo final nos escapa completamente, entretidos que estamos entre uma publicidade e outra que não sabemos em absoluto como nos foi dirigida.
Quem está fora do formato é frequentemente tido como difícil e, por regra, problemático, tornando-se um alvo, porque indesejável. No mundo do trabalho, a regra do silêncio e do assentimento acrítico é, muitas vezes, a forma de se sobreviver numa selva urbana, cada vez com menos espaço para “pessoas fora da caixa”.
Que neste dia 1 de Maio se comemore, como sempre, o Dia do Trabalhador, mas que se atente nos múltiplos perigos, alguns dos quais já plenamente instalados, com que nos deparamos. Bastará pensar na quantidade de trabalhadores não-declarados, a viverem à custa de micro-tarefas, sem qualquer previdência social e que ganham a vida a pedalar de mochila carregada às costas, sem qualquer horário de trabalho máximo, conectados para o mundo por uma aplicação da qual dependem inteiramente, para se perceber que a aparência pode ter mudado, mas que a essência da crueldade do mundo continua incólume.
A Humanidade sempre avançou à custa do labor de alguns, mas, do mesmo modo, com a imaginação e a capacidade inventiva de mentes que não estavam capturadas pelo pensamento de cada uma das épocas em que viveram e que souberam ir além das fronteiras impostas.
Independentemente do que escolhermos fazer neste feriado, o meu desejo é que saibamos nós ser dignos das lutas anteriores que nos trouxeram melhor qualidade de vida, mas também corajosos o suficiente para perceber que, nos dias que correm, a realidade de muitos (muitos mais do que pensamos) não é diferente da que deu origem àquele.