Os tradicionais idos veraneantes e a descoberta da Puglia, região do sudeste italiano a namorar o Adriático, trouxeram a impressionante surpresa do PhEST, um Festival Internacional de Fotografia e Arte, nascido em 2016 e que tem como slogan “See Beyond the Sea” (“Ver além do mar”). Trata-se de uma ideia do fotógrafo e realizador Giovanni Troilo (Itália, 1977), diretor artístico do festival, e de Arianna Rinaldo (Itália, 1971), extraordinária curadora que tem sobretudo trabalhado a fotografia documental.
A origem do PhEST parte da condição geográfica de Monopoli: uma cidade do sul de Itália banhada pelo Adriático e, através dele, para o conjunto do Mediterrâneo, que procura contrariar, precisamente, uma visão do Mare Nostrum construída exclusivamente a partir de perspetivas Ocidentais, procurando dar voz às múltiplas identidades que o constituem. Esta multiplicidade inclui os Balcãs, o Médio Oriente, África e outros territórios e permite criar outras formas de representar as suas realidades sociais, culturais e políticas. A fotografia contemporânea é o foco da programação, mas é colocada em diálogo com outras linguagens contemporâneas, que vão do cinema às artes plásticas.
O PhEST é também um convite a descobrir os patrimónios edificados de Monopoli, desbravando as memórias de um território cuja ocupação humana é milenar e se expandiu das muralhas, para hoje se apresentar como um centro antigo bem preservado e marcado por igrejas barrocas, ruas estreitas e uma relação muito direta com o mar. As exposições distribuem-se por edifícios históricos, igrejas, palácios, praças, ruas e zonas junto ao mar, transformando Monopoli numa grande galeria.
A edição de 2026, a 11.ª e que acontece de 7 de agosto a 1 de novembro, tem 14 pontos de exposição, incluindo os pontos a céu aberto, e tem uma seleção de artistas verdadeiramente entusiasmante, com nomes como os de: Vivian Maier (EUA, 1926-2009), Chloé Azzopardi (França, 1994), Sara Angelucci (Canadá, 1962), Roger Ballen (EUA, 1976), Juno Calypso (Reino Unido, 1989), Chinky Shukla (Índia), Julian Germain (Reino Unido, 1962), Harri Pälviranta (Finlândia, 1971) ou Francesco Conti (Itália, 1983). Diferentes geografias e gerações que procuraram responder à pergunta “What if?” (“E se?”).
Neste ponto permitam-me destacar a obra de Julian Germain que se estendia pela muralha que caracteriza o centro histórico de Monopoli, e que é, sobretudo, do século XVI, período de domínio espanhol, reorganizada e reforçada por volta de 1545, durante o reinado do imperador Carlos V.
Voltado para o porto, que foi sempre ponto de partida e chegada, e central para o desenvolvimento da cidade, o conjunto de imagens Classroom Portraits, 2004-2015 lança-nos a seguinte questão: "E se ir à escola fosse a última coisa que todos fizéssemos da mesma maneira?" A série inclui imagens de salas de aula, um pouco por todo o mundo, e deixa-nos uma inquietante certeza sobre as distâncias e as desigualdades que marcam o nosso mundo, sobre os ritmos e velocidades de desenvolvimento da pluralidade de territórios e contextos que o constituem, ficando clara a mentira da política do mérito. Se o simples ato de ir à escola não é igual, nem está ao acesso de todos, a igualdade e a equidade são cenários distantes e repletos de fronteiras.
Não fosse o mar da Puglia ser já incrível, Monopoli diz-nos que uma cidade pode e deve ser plural na sua oferta, e tirar potencial do seu ecossistema, abrindo espaço para a criação contemporânea e para os seus diálogos com os patrimónios que assim se ativam com sentido e mensagem, e não apenas com fogo de vista e entretenimento oco.