Paz, amor, raiva e música antiga

Vítor Moita Cordeiro

Nasceu em Lisboa em 1978. Contador de histórias, apaixonado por música antiga, etnografia e cinema esquecido. É na política prática, aquela que move o mundo, que encontra os desafios que partilha no jornal. Trabalha no Diário de Notícias desde 22 de agosto de 2023.

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Com o verão chegam os festivais de música e a ideia de uma multidão saltitante que celebra a vida e o som em várias manifestações de ímpeto de socialização intensa. Esta descrição não esgota todas as possibilidades que os concertos proporcionam, mas creio que os géneros musicais condicionam a forma como as pessoas sentem. Com isto, defendo que ouvir Korn não é a mesma coisa que apreciar L’Arpeggiata, mas tanto a banda como o ensemble de música antiga são fundamentais. Admito que orbito entre ambos os universos musicais, e de quase todos os outros estou afastado.

No dia 28 de junho, pouco mais do que daqui a uma semana, conto ir ao Rock in Rio pela primeira vez, porque é um dos poucos festivais que nunca experimentei. Aparentemente, vou ouvir 21 Savage, Central Cee, Carlão, Valete, Matuê, Lola Índigo, Irina Barros, Dennis, entre outros nomes. Tirando o Carlão e o Valete, não sei o que me espera, e ainda bem, porque quero ser surpreendido e aprender o desconhecido, mas consigo antever que vou sentir-me como um peixe fora de água, habituado ao universo punk hardcore que consumia no início do século XXI, sendo que nunca deixei de o viver.

Se eu pudesse criar um festival à minha medida, seria um aborrecimento e não iria encher os bolsos dos organizadores, com solos do contratenor francês Philippe Jaroussky, a evocar a música de Claudio Monteverdi, e com a banda de folk francesa Le Grand Barouf a encerrar um palco todas as noites.

Isto não é um nicho, é perfeitamente acessível a toda a gente, mas parece-me que cria um ambiente que não permite a abundância de sensações que se confundem com êxtase e, por isso mesmo, não enchem estádios.

Mas a música é um argumento para assumir um determinado comportamento.

Foto: Paulo Spranger

Por tudo isto, gostaria que houvesse festivais de verão dedicados a música antiga (barroca, renascentista ou medieval, com possibilidade para incluir expressões de matriz rural), mas exatamente nos mesmos termos em que há festivais de rock, metal ou jazz e música eletrónica indizível. As pessoas poderiam usar as mesmas Birkenstock que usam nos outros festivais e andar com os pés sujos enquanto apreciavam Michala Petri a interpretar Bach ou Telemann. Mas isto não existe. Ainda.

Porém, com esta afirmação de desejos plácidos, ainda hoje lamento não ter ido ao Woodstock em 1999, ainda que tenha sido um pesadelo.

Tinha o melhor cartaz que alguma vez, no final dos anos 1990, um jovem de 20 anos poderia imaginar.

Quem é que hoje pode no mesmo festival ouvir ao vivo Metallica, Offspring, Red Hot Chili Peppers, Korn, Moby, o nu metal impossível de Limp Bizkit, Kid Rock, Alanis Morissette ou Dave Matthews Band? Tal como o meu festival livre e intenso de música antiga, um cartaz como o do Woodstock de 1999 também já não existe. Estes nomes, todos, entre outros, estiveram lá e provocaram emoções, nem todas boas.

De acordo com o documentário brilhante de Garret Price Woodstock 99: Peace, Love, and Rage, o festival que encerrou os anos 90, tal como o nome indica, foi uma tempestade de paz, amor e raiva.

Aconteceu no verão, numa antiga base militar nos Estados Unidos. Havia pouca sombra, poucos pontos de água, condições sanitárias débeis e os bilhetes custavam 150 dólares. Era difícil dar tanto dinheiro no final dos anos 90 por música, mas o cartaz era apelativo. E foi uma tempestade perfeita.

A música apelava à raiva, principalmente com Fred Durst, dos Limp Bizkit, a incitar ao ódio. Os jovens rapazes estavam descontentes, não havia sombra, as hormonas estavam em ebulição e as jovens raparigas sentiam-se seguras, porque o primeiro Woodstock, em 1969, era uma celebração pacífica do amor, à música e às pessoas.

A versão de 99 foi um inferno, consta. Raparigas eram violadas digitalmente (com os dedos) quando faziam crowdsurfing. Uma foi violada em frente ao palco durante um concerto, enquanto outra esteve horas na tenda com um desconhecido que abusou dela.

Os jovens rapazes, brancos, pegaram fogo a várias infraestruturas do festival - porque havia velas a serem distribuídas, como apelo à paz - e pilharam lojas de roupa e de comida.

No final, a polícia foi convocada para pôr ordem. Com palmadinhas nas costas, os agentes dispersaram os vários motins, mas, provavelmente, o final teria sido diferente se se tratasse dum festival de hip hop em 2026. A cor da pele também era um fator a considerar.

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