Dois livros, um saído em Fevereiro de 2025 e um outro, mais recente, de Janeiro deste ano, são, no fundo, um díptico. Os títulos são estes: Características (o de 25) e 987654321 (o de 26).Aquele título funciona como um postulado geral: apresentar as características do nosso tempo, desta era caracterizada pelos “projectos servis”, com o poeta aguardando “a porcaria vir à tona / olhando triste a infantil memória / de um rio vasto como o céu / antes de ter olhos electrónicos”. O livro mais recente pode ler-se como cáustica observação, ainda mais desencantada, daquilo que no primeiro conjunto de textos era a certeza de um processo de decadência do Ocidente impossível já de disfarçar (“Vocês conseguiram tão bem sedentarizar-nos, / e agora estão a braços // com as imigrações selvagens’”) e é agora – com esse título a mostrar a contagem decrescente da nossa época – a observação da História no seu período longo, a Modernidade: “O frio desta época, a nossa, / a silhueta atrás da cortina, / a mísera ejaculação: precoce / substituto do desmame (…).” Com efeito, um díptico. Mas faz sentido que o seja, posto que na poesia agreste, analítica, seca, austera (o trabalho da frase, o arranjo estrófico, a escolha da quadra e do terceto, do dístico e do monóstico, o cuidado métrico, com subtil inclinação para o decassílabo que se dilui na frase coloquial, avessa a artificiais classicismos) de Paulo da Costa Domingos (com Carlos Poças Falcão e Luís Adriano Carlos, Jorge Vaz de Carvalho e Jorge Fazenda Lourenço, uma das vozes mais incomodamente líricas do lirismo actual pelo que em todos há de “frauta ruda” e autêntico mergulho num tempo outro, que é o da poesia transformando o real em linguagem que se sente, se saboreia, se degusta lendo alto versos, procurando por detrás do tempo tétrico a beleza de imagens que perfuram, coisas raras que estes poetas sabem surpreender), o poema seja, sobretudo, não um muro de lamentações, mas um perímetro cercado de arame farpado.. O poeta não hesita em afastar-se, cruamente, sem concessões, da época descerebralizada em que vivemos: “Sigo o círculo de aves indistintas”, escreve. Mas essas aves não são, nem podem ser já, senão os drones, símbolo deste século onde o poeta que é Paulo da Costa Domingos poderia lembrar Pessanha: “Vou a medo na aresta do futuro / embebido em saudades do presente.” É que o sujeito dos textos debate-se entre tempos, entre duas memórias: um passado irrecuperável e um presente asfixiante.O autor de 987654321 ressente a violência de um mundo em que a revolução se amestrou, em que a poesia se transformou em happening, festival permanente de egos. Contra isso só há uma resposta: o verso cáustico, “ser-se / muito lacónico no verso / e ir embora”. (in Características). Laconismo e sarcasmo, ironia (magoada) e a consciência de que a “História move-se como um verme / sobre lume”, não há, em livros recentes sobre a época líquida e tecnofascista em que nos meteram uma voz tão crua como esta. Poemas que literalizam a realidade, mas não esquecem esse princípio de poética que assenta em dizer-se, mesmo quando rude, de forma expressiva, provocadora, com imaginação, esse real que nos cerca de morte do pensamento e da sensibilidade por todos os lados: “O preço a pagar apaga-nos, sabe-se / que isso acontece: os açaimos, os cabides. / Os filhos sintéticos desta geração / (cujo devir deveria / federar dissídios e relapsos) / constroem o Museu do Sujo e do Hostil, / que é o reverso da medalha do trabalho, / a toalha de mesa das boas famílias. / Os açaimos, os varões tóxicos, / cujo devir deveria (…)”.."Paulo da Costa Domingos, a quem devemos dos livros mais invulgares destes últimos 40 anos, alcança com a belíssima e sóbria chancela de Emanuel Cameira, a Barco Bêbado, um lugar só seu no actual panorama poético português.”. A voz do sujeito enunciador suspende-se talvez porque se sabe que é inútil permanecer fiel a uma consciência do tempo, do passado. Resta exercer o exorcismo: causticar os falsários, os hipócritas, os tíbios, os governadores do mundo. Será que o poeta é ainda esse legislador escondido do mundo? Não vamos tão longe. Paulo da Costa Domingos é um poeta que alinha pelo diapasão de Jean-Luc Nancy: a resistência da poesia está em ela não poder pactuar com outras formas de oportunismo (o engajamento da moda, o esquerdismo infantil, certo wokismo a destempo). Daí que seja sentenciosa, imperativa, mas sempre fria a mensagem, nunca épica, jamais exasperada: “Sob a máscara executiva / a gravata anuncia a fôrca, / lá nesses lugares isolados, de dispepsia, / raiva muda e úlceras”, lemos no livro de 2026.“Esta vida impossível / fora dos ângulos mortos, // no dilema sujo sombrio / do trabalho, devora-nos / até ao osso e ao mijo. // Que diabo de autor poude / patentear tais coisas?”, pergunta esse eu agónico no poema que abre 987654321. A grafia de antes do Acordo Ortográfico de 1945, a invulgar pontuação, vetusta, como se fazia antes de 1911, isso é outra forma de poética. Paulo da Costa Domingos, a quem devemos dos livros mais invulgares destes últimos 40 anos (e haverá tempo para longamente, sobre a sua obra, escrever com minúcia e fazendo jus a uma literatura viva) alcança com a belíssima e sóbria chancela de Emanuel Cameira, a Barco Bêbado (com duas outras chancelas que se aliam num projecto radicalmente novo: ed. Viúva Frenesi, em gesto gostosamente impróprio), um lugar só seu no actual panorama poético português. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico