A 3 de junho de 2026 tivemos mais uma greve geral, a segunda em seis meses, que voltou a colocar o país em suspensão: metros parados, comboios a circular a conta-gotas, mais de 500 voos afetados, escolas fechadas e hospitais a funcionar no limite dos serviços mínimos. E, quando a manifestação da CGTP terminava, os confrontos junto à Assembleia da República transformaram um dia de protesto num final de tarde com um carrossel de imagens e filmagem de que ninguém precisava, mas que, infelizmente, se têm tornado cada vez mais habituais.O balanço desta greve, a meu ver, é a de um empate em que todos saem a perder, devo até realçar os dois principais perdedores, o bom-senso e Portugal. O Governo, os sindicatos e os próprios trabalhadores ficam um pouco mais fracos depois da última greve geral.O “Trabalho XXI”, o pacote laboral que motivou esta paralisação, pode ter méritos. Pode até ser, como o Executivo insiste, uma modernização necessária das relações laborais num país cujo mercado de trabalho apresenta sérias disfunções estruturais. O problema é que o Governo nunca explicou isso convenientemente.A reforma foi apresentada como um facto consumado, sem uma narrativa clara sobre os seus benefícios, sem uma campanha de explicação pública, sem uma tentativa genuína de construir um consenso antes de chegar ao Parlamento. O resultado foi previsível: num país com memória histórica de desconfiança em relação a reformas laborais como o nosso – a última foi em 2012, em plena troika –, o espaço vazio de comunicação foi preenchido pela mensagem sindical.Não é assim que se governa, reformas estruturais precisam de ser “vendidas” à sociedade, não apenas aprovadas em sede política, e, quando se governa sem maioria absoluta, a tentação de avançar sem Concertação é, ao mesmo tempo, compreensível e suicida.Mas o Governo não é o único responsável pelo impasse. A CGTP, que desde o primeiro momento se retirou das negociações sobre a proposta, convocou uma greve geral, a segunda em menos de seis meses. A questão não é se a greve era legítima: sem dúvida que era, a questão é se era necessária ou já só servia sobretudo para demonstrar músculo. Greves gerais devem ser instrumentos de último recurso. São o ponto em que o diálogo falhou, as possibilidades se esgotaram e resta apenas a paralisação coletiva como forma de pressão. Os sindicatos optaram pela greve antes de se sentar à mesa com propostas concretas de reformulação do pacote, o Governo, por seu lado, não criou as condições necessárias para que esse diálogo fosse mais além.O problema estrutural do sindicalismo português é muito mais fundo do que uma greve geral: uma representatividade real que não corresponde à capacidade de mobilização mediática. A ministra do Trabalho afirmou que a adesão do setor privado foi “absolutamente residual”. A CGTP contestou os dados de participação no setor público. Ambos têm razão, o que por si só diz muito: Portugal tem um sindicalismo que é forte no Estado e fraco no mercado. Uma greve geral que paralisa comboios, mas não fábricas é, antes de mais nada, uma demonstração dos seus próprios limites.A manifestação correu, na sua maioria, de forma ordeira, de acordo com a comunicação social. Trabalhadores, famílias, funcionários públicos e privados juntaram-se nas ruas para exercer um direito constitucional – tudo indicava que era apenas a democracia a funcionar. Mas como bem sabemos, à boa maneira portuguesa, existem sempre os que que se aproveitam das regras para ir mais além. Perto das 18h00, junto à Assembleia da República, um grupo de dezenas de jovens decidiu que a democracia não chegava, arremessando garrafas de vidro à PSP, petardos, fumos, caixotes do lixo a arder, culminando em seis detidos.Estes episódios não representam o movimento sindical, nem os trabalhadores que aderiram à greve – vimos logo uma demarcação quase imediata da CGTP, o que, por si só, é um pouco contraditório, na medida em que acolheram estes jovens na manifestação como seus camaradas de luta, contra um pacote que muitos deles até desconhecem, mas que quando as coisas começam a correr mal “afinal já não é nada connosco…” Isto representa um padrão preocupante que tem surgido em múltiplas manifestações europeias: um núcleo de agitação que se aproveita do espaço político e mediático criado pelo protesto legítimo para transformar a rua num teatro de confronto.A baixa sindicalização em Portugal (7% em 2024), face aos 65% pré-25 de Abril, contrasta com a capacidade de paralisar o setor público, onde a concentração estratégica garante visibilidade mediática. Em contrapartida, a Alemanha, com apenas 15% de filiação, alcança 77% da massa laboral através do Tarifvertragsgesetz (Lei de Convenções Coletivas) e da Mitbestimmung (cogestão ou codeterminação), que institucionaliza o diálogo e veda paralisações durante a conciliação. Enquanto o Código do Trabalho português consagra um direito à greve quase absoluto, falha em criar canais de participação orgânica, limitando a negociação coletiva a uma elite. O resultado é a greve como espetáculo visual e ferramenta única de pressão.Portugal lida com salários baixos, precariedade e fuga de talentos, num cenário de desarticulação entre governo e sindicatos. A última greve geral apenas evidenciou estas patologias e sobretudo o facto de os sindicatos estarem cada vez menos a ser estruturas representativas de trabalhadores, mas sim de interesses partidários. A sindicalização é algo demasiado importante para ser confundido com “politiquice”, quem o faz apenas mostra a sua arrogância e a sua ignorância. Não se trata de sermos bons contra maus, mas todos por um trabalho mais digno.