Palestina: quando o silêncio do Ocidente pesa tanto como as bombas

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À laia de disclaimer, escrevo deliberadamente este texto antes de entrar em período de férias.

A verdade é que vivemos formatados pela realidade que nos dão a conhecer (como se fosse a única), agora ocupados entre o monte de Luís Neves e o atrelado que, alegadamente, autorizou que fosse levado pelo amigo empreiteiro, e os incêndios na Europa, em especial na vizinha Espanha e em França. Contudo, há mais mundo para além do que nos dão a conhecer, repetidamente, telejornal atrás de telejornal.

Por exemplo, há muito que a Palestina deixou de ser notícia. Não porque a guerra tenha terminado, não porque os bombardeamentos tenham cessado, não porque a população tenha recuperado a segurança ou a dignidade. Deixou de ser notícia porque o mundo se habituou ao sofrimento dos palestinianos. E quando uma tragédia se torna rotina, deixa de gerar audiências, cliques e manchetes. O horror continua, mas já não vende.

Este talvez seja um dos maiores falhanços das democracias contemporâneas. Vivemos convencidos de que aquilo que ocupa os noticiários é o mais importante. No entanto, a realidade demonstra precisamente o contrário. A actualidade é governada pela novidade, não pela gravidade. Uma crise humanitária pode continuar a agravar-se durante meses ou anos sem merecer o destaque que teve no início. O silêncio mediático acaba, assim, por funcionar como uma cortina que esconde uma realidade que permanece inalterada.

A Palestina é um exemplo doloroso desta lógica. Depois de meses de imagens devastadoras vindas de Gaza, o conflito desapareceu progressivamente da agenda mediática internacional. As televisões passaram a abrir com outros temas, as redes sociais seguiram novas tendências e os governos encontraram outras prioridades diplomáticas. Entretanto, para quem continua a viver em Gaza ou na Cisjordânia, pouco ou nada mudou. Continuam a existir famílias sem casa, hospitais sobrelotados ou destruídos, crianças privadas de Educação e uma população inteira confrontada diariamente com a insegurança e a incerteza.

É impossível analisar esta realidade sem questionar o papel desempenhado pelos Estados Unidos e pela Europa. Durante décadas, ambos se apresentaram como defensores da democracia, do Direito Internacional e dos Direitos Humanos. Esses princípios foram repetidamente invocados para justificar sanções, intervenções diplomáticas e condenações dirigidas a diversos países. No entanto, quando o conflito envolve Israel e a Palestina, muitos críticos sustentam que esses mesmos princípios têm sido aplicados de forma inconsistente.

Os Estados Unidos continuam a ser o principal aliado político, militar e estratégico de Israel. Esse apoio manifesta-se através de cooperação militar, ajuda financeira, fornecimento de armamento e protecção diplomática em fóruns internacionais. Ao longo dos anos, Washington utilizou diversas vezes o seu poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas para bloquear determinadas resoluções relacionadas com o conflito israelo-palestiniano. Para muitos observadores, esta posição enfraquece a capacidade das instituições internacionais para actuarem de forma eficaz e transmite a ideia de que alguns aliados beneficiam de um tratamento diferente perante o Direito Internacional.

Naturalmente, os Estados Unidos justificam esta política com base na defesa da segurança de Israel, país que enfrentou ataques armados, incluindo o ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023, amplamente condenado pela comunidade internacional. O direito de qualquer Estado à segurança é reconhecido pelo direito internacional. Contudo, esse mesmo direito coexiste com obrigações relativas à protecção da população civil e ao respeito pelas normas humanitárias durante os conflitos armados. É precisamente sobre a aplicação prática desses princípios que se concentra grande parte da crítica internacional.

A União Europeia, por sua vez, também enfrenta um problema de credibilidade. Depois da invasão russa da Ucrânia, os líderes europeus afirmaram, de forma clara e firme, que o direito internacional não podia ser violado impunemente. Foram impostas sanções económicas, congelados activos, reforçado o apoio militar à Ucrânia e multiplicadas as declarações em defesa da soberania dos Estados. Essa resposta demonstrou que a Europa possui instrumentos políticos quando existe vontade para os utilizar.

É precisamente essa comparação que alimenta muitas das críticas dirigidas às instituições europeias. Perante Gaza, a resposta revelou-se menos consensual e mais fragmentada. Enquanto alguns Estados-membros defenderam rapidamente um cessar-fogo e um aumento da ajuda humanitária, outros privilegiaram o apoio ao direito de Israel à defesa, colocando menor ênfase nas consequências humanitárias da ofensiva. O resultado foi uma União Europeia frequentemente dividida, incapaz de falar a uma só voz numa das maiores crises humanitárias da actualidade.

Esta diferença de atitude não passou despercebida a grande parte da opinião pública internacional, sobretudo no Médio Oriente, em África e em muitos países do Sul Global. Cresceu a percepção de que a defesa dos Direitos Humanos depende, demasiadas vezes, da identidade dos intervenientes e dos interesses geopolíticos em causa. Quando o Direito Internacional parece ser aplicado com diferentes graus de exigência, perde parte da sua força moral e da sua legitimidade. O mesmo sucede, aliás, com todo o Direito, como tivemos oportunidade de assistir no Mundial, em que um telefonema desbloqueou um cartão vermelho.

Não significa que a realidade seja simples ou que existam soluções fáceis. O conflito israelo-palestiniano é um dos mais complexos da História Contemporânea, marcado por décadas de violência, atentados, ocupação, guerras, fracassos diplomáticos e profundas desconfianças entre ambas as sociedades. Ignorar esta complexidade seria um erro. Mas reconhecer a complexidade não pode servir de pretexto para relativizar o sofrimento humano, nem para aceitar que a protecção da população civil seja tratada como uma preocupação secundária.

Talvez o aspecto mais inquietante seja precisamente este: quanto mais tempo dura uma tragédia, menor parece ser a capacidade do mundo para lhe prestar atenção. O sofrimento prolongado deixa de chocar. A destruição deixa de surpreender. As mortes transformam-se em estatísticas. E as vítimas acabam por desaparecer não apenas sob os escombros, mas também da consciência colectiva.

É nesse momento que o silêncio deixa de ser apenas ausência de notícias. Torna-se uma forma de indiferença política. E essa indiferença tem consequências. Quanto mais não seja na nossa capacidade de sermos humanos.

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