Os próximos 250 anos da América

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Donald Trump discursou em Washington no 4 de Julho, desta vez muito especial, pois cumpriram-se 250 anos da Declaração de Independência. Falou muito de História, mas sempre ao ataque. Na véspera, no Dacota do Sul, o presidente americano tinha já feito uma primeira celebração, discursando junto ao Mount Rushmore, onde surgem esculpidos os rostos de quatro dos seus antecessores: George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln. Outra clara homenagem de Trump à História dos Estados Unidos, mostrando ter perfeita consciência da honra (e da oportunidade) que lhe coube por ser presidente no momento destes dois séculos e meio de América, a contar da assinatura em Filadélfia, a 4 de julho de 1776, do documento escrito por Jefferson.

Nessa mítica Declaração da Independência destaca-se o famoso trecho que fala de todos nascerem iguais e de terem direito à busca da felicidade, que serviu de mote para a rebelião contra a Inglaterra de Jorge III. Trump citou-o perante a multidão, que fez questão de o ouvir, mesmo com uma tempestade a abater-se sobre a capital e a obrigar a adiar umas horas um discurso que foi político, com manifesta carga ideológica (o ataque duríssimo ao comunismo ou a defesa do direito ao porte de arma), mas que pretendeu sempre glorificar o país, ainda que alimentando uma divisão na sociedade que existe e que não deixou de se manifestar durante as celebrações por toda a América.

"Nem a tese do declínio da América é irrefutável, nem a ideia trumpiana de que é possível tornar a América grande de novo (em que sentido?) se impõe como evidente. Mas se Trump concentrou as atenções no 4 de Julho, um evento americano que se tornou global, é porque lidera um país que continua sem igual..."
"Nem a tese do declínio da América é irrefutável, nem a ideia trumpiana de que é possível tornar a América grande de novo (em que sentido?) se impõe como evidente. Mas se Trump concentrou as atenções no 4 de Julho, um evento americano que se tornou global, é porque lidera um país que continua sem igual..." FOTO: Jim Lo Scalzo / EPA

Há um momento do discurso em que Trump fala do excecionalismo americano. E antes ainda tinha já referido que os Estados Unidos eram um país muito especial. Ora, os presidentes podem ser em grande medida protagonistas desse excecionalismo: George Washington, quando consegue uma improvável vitória na Guerra de Independência contra o maior império da época; Jefferson, que depois foi o 3.º presidente e comprou a Luisiana a Napoleão, abrindo as portas do Oeste à jovem nação; Lincoln, quando triunfa na Guerra Civil salvando a União e abolindo a escravatura; o primeiro dos Roosevelt, quando elevou o país à condição de potência mundial.

Os quatro presidentes representados no Mount Rushmore, monumento inaugurado quando Franklin Roosevelt era presidente, surgem em destaque em todas as listas regularmente elaboradas por historiadores sobre quem mais se distinguiu na liderança. E o segundo Roosevelt, Franklin, o homem que com o New Deal tirou a América da crise dos anos 1930 e liderou o país na Segunda Guerra Mundial, costuma hoje surgir num pódio presidencial onde estão igualmente Washington e Lincoln.

Outros presidentes vão subindo e descendo na hierarquia, reavaliados à luz de conhecimentos ou de perspetivas diferentes, também sempre em comparação com os novos presidentes que vão sendo eleitos. E a perspetiva dos historiadores só em parte coincide com a da memória coletiva. Trump, que cumpre um segundo mandato intercalado, reivindicou que está a tornar a América grande de novo, mas também ele terá de esperar pelo julgamento da História, quando houver maior distanciamento em relação ao político e ao seu legado. E faltam ainda dois anos até deixar a Casa Branca, com umas eleições intercalares para o Congresso que podem afetar a relação de poder entre o presidente republicano e a oposição democrata.

O excecionalismo dos Estados Unidos é uma realidade desde o momento inicial, no século XVIII. Basta pensar que são uma república nascida em tempo de monarquias, que Washington é o primeiro chefe do Estado a ser chamado presidente, e que o novo país não só acaba por suplantar a antiga metrópole como líder do Ocidente, como acaba por conseguir ser a primeira potência mundial, até mesmo a única superpotência desde a desagregação da União Soviética. Uma supremacia contestada, desafiada muito hoje, sobretudo pela ascensão da China, mas ainda real.

Essa supremacia contestada tem originado, ao longo das últimas décadas, uma série de livros que especulam sobre aquilo a que chamam o declínio dos Estados Unidos. Por vezes até surgem comparações audazes com o Império Romano, cuja simbologia tanto influenciou os Pais Fundadores, como se pode ver através da arquitetura da capital, construída e batizada com o nome do primeiro presidente. Provavelmente, identificavam-se mais com o período republicano do que com a era que chegou com Augusto, o primeiro imperador, mas é inegável a influência de Roma nos primórdios da nova nação, na construção de um ideal de democracia e liberdade no Novo Mundo.

"Os momentos em que os Estados Unidos foram mais fortes estão diretamente relacionados com serem vistos como modelo pelo mundo ou, pelo menos, por grande parte do mundo. Veremos como se iniciam estes segundos 250 anos de um país especial, o país que pôs o homem na Lua e agora quer chegar a Marte."

Nem a tese do declínio da América é irrefutável, nem a ideia trumpiana de que é possível tornar a América grande de novo (em que sentido?) se impõe como evidente. Mas se Trump concentrou as atenções no 4 de Julho, um evento americano que se tornou global, é porque lidera um país que continua sem igual quando se fala do poder militar ou económico, da liderança tecnológica ou do prestígio das universidades, ou ainda do sucesso do seu soft power, seja o cinema de Hollywood ou os restaurantes de fast food. Não por acaso o sonho americano continua a atrair milhões de pessoas, que arriscam muito para serem aceites num país de imigrantes, que hoje olha para a imigração com desconfiança, uma das muitas contradições destes Estados Unidos, outra das suas marcas.

Liderar passa por dar o exemplo. O excecionalismo americano é não resultado de só um presidente e da sua ação, seja quem for, mesmo os maiores de entre eles . Sobretudo é do país, do seu povo, ao longo do tempo. Os momentos em que os Estados Unidos foram mais fortes estão diretamente relacionados com serem vistos como modelo pelo mundo ou, pelo menos, por grande parte do mundo. Veremos como se iniciam estes segundos 250 anos de um país especial, o país que pôs o homem na Lua e agora quer chegar a Marte.

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