Os olhares solidários

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Não posso adivinhar se o leitor experimenta, à sua maneira, a mesma sensação de contínua redescoberta das imagens em que julgo viver – não apenas, nem sobretudo, em termos profissionais, mas como obsessivo carrossel de olhares, sensações e pensamentos. A imagem que ontem, há alguns anos ou na infância, significou alguma coisa para o olhar pode sempre regressar como uma “entidade” de muitas e fascinantes ambivalências: transporta os passados (creio que é mesmo uma questão plural) e, de alguma maneira, reinventa-se como presente.

O motor que alimenta tal ziguezague não funciona necessariamente a partir de imagens. Pode estar ligado à escrita. Há dias, no magnífico livro de José Bértolo dedicado aos filmes de Manoel de Oliveira e João Pedro Rodrigues – Espectros do Cinema (ed. Documenta, 2020) - reencontrei algumas palavras luminosas sobre as relações ou, talvez melhor, os vasos comunicantes que, de forma mais ou menos consciente para o olhar de cada um, ligaram e continuam a ligar fotografia e cinema.

José Bértolo recorda-nos que os “espectros” que habitam os filmes não são a exceção, mas a regra do cinema: “(...) devido à sua matriz fotográfica, o cinema afirma-se como um reino em que os mortos podem encontrar uma forma de subsistência no mundo dos vivos.” Ou ainda, um pouco mais à frente: “A fotografia torna-se, assim, um canal que liga a vida e a morte. Ao mesmo tempo que subtrai vida aos seres humanos que se sujeitam à captação da sua imagem, ela outorga-lhes a possibilidade de subsistir no mundo, enquanto imagem (em termos miméticos, numa cópia perfeita), para além da morte.”

Não há nada de fúnebre nesta visão. Não há, sobretudo, qualquer confusão com a obscenidade televisiva que todos os dias explora o silêncio da morte através da agitação histérica de imagens em “loop” que, por fim, nos desligam da densidade da própria vida – afastando-nos também da certeza rudimentar, que pode ser também uma forma de alegria, de que vivemos em direção àquele silêncio sem autor nem divindade.

Fui, então, levado a rever as fotografias de um projecto de José Bértolo em que se sente esse passar do tempo cujo ponto de fuga nos escapa tanto mais quanto tentamos fixar (fotograficamente ou não) a sua metódica cavalgada. O seu título, “365”, não podia ser mais objectivo: durante um ano (de 22 de fevereiro de 2022 a 21 de fevereiro de 2023), o fotógrafo andou sempre acompanhado por uma câmara, guardando uma imagem por dia – como se escreve na apresentação no site do autor, o resultado é um “diário visual” e um “calendário íntimo”.

Gatos, peixes, reflexos na água, humidade, o gosto de olhar para o chão como se fosse um céu... Nada nos obriga a resumir tudo num “tema”, como se faz, com risonha irresponsabilidade, em certas abordagens televisivas das práticas artísticas. Em boa verdade, se há sugestão temática é a da irredutibilidade de cada gesto, cada olhar, cada movimento das mãos que leva o fotógrafo a gerar uma imagem. As fotografias de José Bértolo testemunham a solidão radical de quem arrisca olhar o mundo à sua volta sem ceder a clichés mediáticos, porventura abrindo caminho para um cruzamento feliz com a solidão de outro olhar, outros corpos, diferentes histórias. Tudo envolvido no instante solidário, imponderável, que cada imagem encena, promove e partilha.