“Dar erros e depoisde eu próprio os notara outros dar o prazerde os emendar.” Arnaldo Saraiva Os eventos culturais, como quase tudo o que vale a pena, não são feitos pelos nomes que aparecem no cartaz, são feitos pelos nomes invisíveis para a maioria dos espectadores.Passei os últimos dias a assistir a uma coreografia silenciosa de gente que resolve problemas antes de eles existirem. Pessoas que carregam caixas, reorganizam cadeiras, recebem convidados, encontram uma solução quando parecia já não existir nenhuma. Pessoas que respondem a uma chamada às sete da manhã e a outra à meia-noite com a mesma disponibilidade. Que fazem muito mais do que aquilo para que foram contratadas, que substituem um colega sem ninguém lhes pedir, que sabem onde está a fita-cola, o cabo, o motorista, a tradutora, o livro que desapareceu, a chave que faz falta, que abdicam de férias para trabalhar por amor a uma pessoa, a uma ideia.Nunca tinha pensado nisto com tanta clareza: um grande evento não é uma soma de talentos extraordinários, é uma soma de pequenos gestos de competência.Vivemos fascinados pela ideia do génio individual, gostamos de identificar o responsável pelo sucesso, como se existisse uma única pessoa capaz de fazer acontecer uma cidade inteira, no entanto os grandes projetos raramente pertencem a alguém. Pertencem a uma comunidade temporária que decide, durante alguns dias, colocar o objetivo comum acima do protagonismo individual.Talvez seja essa a verdadeira definição de equipa.Uma equipa não é um conjunto de pessoas que trabalha no mesmo lugar, é sim um conjunto de pessoas que deixa de perguntar “o que é que me compete?” para começar a perguntar: “O que é que falta fazer?”Parece uma mudança subtil, mas muda tudo.Nos últimos dias vi profissionais de áreas completamente diferentes fazerem precisamente isso. Comunicação, produção, programação, técnica, protocolo, hospitalidade, montagem, segurança. Cada um conhecia a importância da sua função, mas nenhum parecia demasiado preocupado em defendê-la como território. Quando surgia um problema, a pergunta nunca era de quem era a responsabilidade. Era quem podia resolvê-lo mais depressa.É curioso como este espírito raramente merece manchetes.As notícias preferem os conflitos às soluções, o erro à competência, a falha ao trabalho bem-feito. Há uma estranha economia da atenção que faz com que um pequeno deslize viaje muito mais depressa do que centenas de decisões acertadas.Talvez porque celebrar exige generosidade e criticar, tantas vezes, apenas rapidez.Não defendo uma cultura de complacência, tenho perfeita consciência de que o espírito crítico é indispensável. Sem ele não há exigência, nem progresso, nem democracia, mas há uma diferença enorme entre a crítica que procura melhorar e a crítica que apenas procura diminuir. Uma constrói. A outra limita-se a consumir.Por isso, guardo destes dias uma aprendizagem inesperada. O sucesso é profundamente coletivo.Quando alguma coisa corre mal, procuramos imediatamente um rosto, um nome, um culpado. Quando alguma coisa corre bem, esquecemo-nos quase sempre de que esse resultado pertence a dezenas, por vezes centenas, de pessoas que fizeram exatamente aquilo que tinha de ser feito, no momento certo, sem esperar aplausos.É talvez esse o maior luxo do trabalho em equipa: perceber que ninguém é suficientemente importante para fazer tudo sozinho e que todos são suficientemente importantes para que nada aconteça sem eles.No fim, quando as cadeiras são arrumadas, os palcos desmontados, as luzes desligadas e a cidade regressa ao seu ritmo habitual, ficam os grandes momentos na memória de quem assistiu. Quem trabalhou leva consigo outra recordação, leva os gestos invisíveis.