Os homens necessários

Publicado a

Nos séculos XVIII e XIX franceses, não foram Robespierre, o Regime do Terror, Napoleão ou Luis XVIII quem reinou: foi Joseph Fouché, o político que se intitulava “o homem necessário”.

Seminarista, passou de devoto católico a perseguidor feroz da Igreja, saqueando templos e combatendo o clero, quando a Revolução rebentou.

Aliou-se então aos jacobinos mais radicais, votou pela execução de Luís XVI e atuou como temido “Carniceiro de Lyon”, ordenando fuzilamentos em massa, até se aperceber da iminente queda do Regime do Terror e começar a conspirar nos bastidores para guilhotinar o seu mais próximo aliado, Robespierre.

Fez parte, a seguir, do governo moderado do Diretório antes de ajudar, quando a maré virou, no golpe de Estado de Napoleão, de quem se tornaria poderoso ministro da Polícia.

Ao pressentir a queda de Bonaparte, porém, atuou pela restauração da monarquia absoluta e serviu o rei Luís XVIII, irmão do monarca que ele mesmo ajudara a decapitar anos antes.

Nos livros, foi biografado por Stefan Zweig e parodiado em Le Chevalier de Sainte-Hermine, de Alexandre Dumas, e no best-seller O Perfume, de Patrick Süskind.

Nos ecrãs, foi interpretado por Claude Brasseur em Le Souper, de Édouard Molinaro, por Albert Finney em O Duelo, de Ridley Scott, e por Gérard Depardieu na minissérie Napoleão, de Yves Simoneau.

Os pares contemporâneos e os historiadores apelidaram-no de vira-casacas a cata-vento, de camaleão a esfinge, de talentosa abominação a génio da intriga e, por causa da falta de sentimentos e escrúpulos, de “homem sem entranhas”, uma definição de Napoleão.

Mas Fouché, ao contrário do famoso imperador, nunca perdeu. Já no Brasil de dois séculos depois, quem nunca perde é o Centrão.

Para quem não está familiarizado com a política brasileira, o Centrão é o grupo de partidos, nomeadamente o MDB, o União Brasil, o Progressista, o Republicanos, o PSD e mais uns quantos, que apoia todos os governos, do mais lulista ao mais bolsonarista, do mais liberal ao mais conservador, em troca de cargos, honrarias e, sobretudo, nacos do Orçamento.

Como parte desses nacos de Orçamento que o Centrão arranca do poder executivo se destina a obras nos redutos dos políticos do grupo (a outra parte, frequentemente, termina nos próprios bolsos), os eleitores elegem-nos e reelegem-nos. E depois elegem e reelegem os filhos deles, os netos deles, os bisnetos deles num ciclo que vicia a política brasileira, desde os tempos em que Fouché ainda era vivo.

Nestas eleições, estes homens tropicais sem entranhas já tomaram partido: não vão tomar partido. Não apoiam nem Lula da Silva, nem Flávio Bolsonaro, nem sequer Ronaldo Caiado, que é de uma formação do grupo, o PSD.

Querem estar livres de amarras para, no governo do próximo presidente, arrancarem, sem dó, mais nacos do Orçamento.

Estes vira-casacas, estes cata-ventos, estes camaleões, estas talentosas abominações, entretanto, quando confrontados pela imprensa com a sua duvidosa atuação justificam-se: “Em tempos de polarização, somos o garante da estabilidade.” Ou seja, sentem-se, como o outro, “homens necessários”.

Diário de Notícias
www.dn.pt