Na década dos anos 1990, vivemos na Europa a crise da doença das vacas loucas, que afetou um número muito elevado de gado bovino, e que criou um grande receio de uma pandemia da variante humana desta doença. Era uma variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma doença neurodegenerativa terrível, e fatal, que ainda não se conhecia em detalhe naquela época. Foi este tema que me entusiasmou, ainda enquanto estudante Universitário, e que me trouxe ao estudo desta e de outras doenças neurodegenerativas.
Como a pandemia não se verificou, felizmente, foi-se falando cada vez menos na DCJ, por ser uma doença rara. No entanto, esta doença ganhou agora uma atenção renovada pois atingiu o influenciador brasileiro Lito Sousa, piloto, mecânico de aviação, e especialista em Segurança Aérea.
No Brasil, tem-se falado muito desta doença, que é uma das condições neurológicas mais raras e desafiadoras da medicina contemporânea. A doença é causada por priões – proteínas que existem normalmente das nossas células mas que, por motivos ainda pouco conhecidos, mudam de forma e desencadeiam uma cascata tóxica no cérebro, provocando degeneração rápida e fatal.
Os priões são proteínas normais do organismo, presentes principalmente nos neurónios e envolvidas em funções como proteção celular, memória e regulação imunitária. Na DCJ, uma fração destas proteínas altera a sua conformação tridimensional, transformando-se numa versão patogénica. Esta forma anormal tem a capacidade única de “recrutar” proteínas saudáveis vizinhas, convertendo-as, através de um ciclo-vicioso, priões infecciosos.
Diferentemente de vírus ou bactérias, os priões não contêm material genético; são exclusivamente proteínas, mas com um poder de propagação assustador dentro do sistema nervoso central.
Até recentemente, o diagnóstico definitivo de DCJ só era possível post-mortem, por análise histológica do cérebro. Hoje, contudo, dispomos de biomarcadores que permitem identificar a doença em vida com elevada confiança. Para além de técnicas imagiológicas, existe hoje um teste bioquímico que permite detetar as proteínas alteradas no líquido cefalorraquidiano do doente, num ensaio que oferece alta sensibilidade e especificidade.
Embora a DCJ continue sem tratamento curativo, o panorama terapêutico começa a mudar. Várias abordagens estão em estudo, com foco em interromper a produção ou a propagação da proteína priónica. Apesar de nenhum destes tratamentos ter ainda demonstrado eficácia clínica definitiva, o simples facto de existirem ensaios em andamento representa um avanço sem precedenteshttps.
O caso de Lito Sousa trouxe visibilidade a uma doença que, pela sua raridade, muitas vezes permanece invisível. A mobilização de pacientes, famílias e cientistas em torno de ensaios clínicos mostra que a comunidade global está unida na busca de soluções. Em Portugal, a Associação Portuguesa de Doenças Priónicas oferece informação e contactos a quem, inesperadamente, é confrontado com um grupo de doenças terríveis, e verdadeiramente assustadoras.
A neurociência avançou enormemente nas últimas décadas: de doenças consideradas intratáveis passámos a ter terapias para muitas delas. A DCJ poderá ser a próxima. Enquanto isso, o apoio paliativo, o conforto e a dignidade do paciente permanecem prioridades absolutas.
Em 2023, tive a honra de organizar o Congresso Internacional de Doenças Priónicas, na Universidade do Algarve. Os maiores especialistas mundiais participaram no congresso, que se repete anualmente, e ficou claro que a esperança não reside apenas em curas imediatas, mas na aceleração do conhecimento, na colaboração internacional e na determinação de que nenhuma doença, por mais rara, ficará para trás.