Os bons malandros

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O Bairro Alto já não é o que era. Mário Zambujal costumava recordar os últimos ecos desse mundo dos jornais, com matutinos e vespertinos e o despertar das notícias e do culto da informação em estado puro, misturados com o boato e a má língua.

Uma célebre caricatura de Jorge Colaço representava o curso da criatividade popular. Uma mosca entrava no ouvido de um primeiro basbaque. O espanto ia aumentando nas faces das personagens, até que saía da orelha final um monstruoso elefante, que já nada tinha a ver com o inofensivo inseto inicial.

Cabia ao jornalista dar o necessário desconto à livre imaginação dos acontecimentos. Tudo se tinha alterado quando Eduardo Coelho fundara em 1864 o Diário de Notícias, inventando os ardinas e pondo os jornais à disposição de todos na rua, ao privilegiar as notícias e não as opiniões. Antes havia A Revolução de Setembro, sedeado na Bica Duarte Belo, no Calhariz, de tiragem menor, mas com a marca política da Regeneração e a direção de Rodrigues Sampaio.

Esse tempo já não volta. Mário Zambujal deixou-nos há pouco. Era um apaixonado das rotativas, do cheiro a tinta, do fumo denso do tabaco nas redações e da azáfama das noites e das manhãs, num tempo em que havia jornais pelo dia fora, muitas vezes com várias tiragens.

Com a tarimba de jornalista, foi um grande escritor, enquanto o seu irmão Francisco foi um grande caricaturista.

O colorido da sua escrita vinha da intensidade da vida da cidade - e A Crónica dos Bons Malandros é um retrato fiel dos lisboetas, como estão vistos por Almada Negreiros na Rocha do Conde d’Óbidos: varinas, saltimbancos, futricas, gente de má vida, todos… Os bons malandros protagonizam um romance cómico-policial, hilariante, realista e trágico, onde o portuguesinho valente é retratado às mil maravilhas. Quem são eles? Renato, o Pacífico, e a sua quadrilha de carapaus de corrida, Marlene, Flávio, o Doutor, Arnaldo Figurante, Pedro Justiceiro, Adelaide Magrinha e Silvino Bitoque.

A cada passo, temos mil surpresas, mas Mário Zambujal reunia todos os ingredientes necessários à boa notícia de um jornalista experimentado nas esquadras da capital e nos acontecimentos quotidianos. O sítio ideal para pôr em marcha este episódio picante, no melhor sentido da palavra, foi o Museu Gulbenkian. “‘É uma coisa de malucos…’, disse Pedro, mas reconheceu que na Gulbenkian ninguém devia estar à espera de uma novidade dessas, e daí que, enfim, talvez resultasse.” Havia que aproveitar as circunstâncias. “A chance estava em inventar um plano completamente novo, um processo que nunca tivesse passado pela cabeça de nenhuma quadrilha e para o qual, em consequência, a segurança não tenha resposta preparada.” Eis o ardil. Uma cadeira de deficiente, e uma caixa retangular de alumínio, fechada, com a tampa salpicada de finos orifícios. “E sabe, o que há naquela caixa? Abelhas. Exatamente: abelhas. (…) Quando o Silvino puxar a manivela a caixa abre-se e as abelhas saem.”

Resultado? Pandemónio no Museu, peripécias e agitação geral. Contudo, o epílogo é lógico e moral. Tudo se desvanece. A quadrilha de Renato, o Pacífico, morre, mas ficam dúvidas quanto à sorte de alguns dos seus membros. A “arte de bem trabalhar toda a fechadura” não se demonstra e os “bons malandros” são figuras da imaginação (construídas com a matéria-prima da vertigem).

Mário Zambujal no seu melhor!

Diário de Notícias
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