Os Acusados (cujo título original é The Accused) é um filme de 1988, dirigido por Jonathan Kaplan e tendo por protagonistas principais Jodie Foster e Kelly McGillis1. O filme, baseado em factos reais, retrata a luta de uma mulher (Sarah Tobias) por justiça após uma violação colectiva. Ali, a defesa dos visados assentou na circunstância de a vítima estar de minissaia e de, num primeiro momento, ter dançado com parte dos seus abusadores num bar.
Já nessa altura, o filme foi bastante polémico, colocando a discussão no tópico onde ela deve estar: as relações sexuais devem ser consentidas do princípio ao fim, incluindo todos os actos decorridos durante as mesmas e basta um “não” para que, a partir daí, estejamos perante o crime de violação.
Relembrei-me deste filme, que, por circunstâncias pessoais, me marcou até aos dias de hoje, em primeiro lugar perante a polémica causada pelas palavras de uma conhecida apresentadora, tida como exemplo das mulheres empoderadas, a propósito de um outro caso, obviamente muito mais recente, de uma alegada violação também colectiva, de quatro alegados YouTubers, cuja vítima disse “não”.
Para os que se recordam, está em causa a actuação de quatro jovens influenciadores/criadores de conteúdo, seja lá que tipo de profissão for essa, que foram detidos e começaram a ser julgados em abril de 2026 por violar, filmar e partilhar agressões sexuais contra uma adolescente de 16 anos em Loures. Para mais, os vídeos dos abusos foram divulgados nas redes sociais, gerando obviamente grande repercussão e maior humilhação na vítima, num clima em que os visados claramente sentiam ser de total impunidade
Num programa televisivo de grande audiência, terá sido por ela afirmado que, no “no meio daquela adrenalina”, os jovens poderiam não ouvir nem entender a rejeição da vítima. Ora, este tipo de discurso, fazendo recordar o famoso, mas já esquecido, “acórdão da coutada do macho ibérico”, coincide com a apresentação do RASI em que os homens até aos 20 anos surgem como o principal grupo de violadores em Portugal2.
De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) 2025, divulgado a 31 de Março de 2026, revelou que os crimes de violação em Portugal atingiram o valor mais elevado da última década, com 578 casos registados, representando uma subida de 6,4% face a 2024 e uma média de 11 casos por semana3.
Daqui resulta que, mais relevante que as muitíssimo infelizes palavras de Cristina Ferreira, aliás na altura secundadas por personagens de menor relevo televisivo, é analisar as causas deste problema e combatê-las.
A este nível, como em outros, voltámos a tempos perigosos, em que o que deveria estar absolutamente assente parece diluir-se e tornar-se fluído, em especial na juventude, muito por conta dos conteúdos fabricados, justamente por outros jovens, cujas ideias parecem advir de séculos passados, em que o papel da mulher não era pura e simplesmente respeitado, sendo tida quase como um mero objecto4.
Especialmente entre a camada mais jovem, deixámos de ler e de reflectir para passarmos a ver vídeos fabricados por gente duvidosa, que faz alarde, por exemplo, da sua falta de educação, seja escolar, seja social. E isso contamina. Alastra porque normaliza o errado, o mal.
Talvez por tudo isto, importa cada vez mais reafirmar que o acto sexual só é verdadeiramente consentido quando os intervenientes o desejam nos exactos termos em que decorre e que, qualquer outro comportamento que não seja de aceitação expressa, clara e inequívoca de cada um dos actos, equivale a um “não”, sendo que especialistas aludem inclusivamente, não apenas ao “sim”, como ao “sim, com entusiasmo”.
E também por tudo isto, o enfoque tem de estar na Educação Sexual nas escolas, mas também na família, explicando-se, as vezes que forem precisas, que o sexo é demasiado precioso para não ser algo bonito e querido. Quando assim não é, é violação e é crime. Sem desculpas e, acima de tudo, sem a culpabilização da vítima.
Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico