Uma vez que estamos a viver um tempo de guerras, mais do que nunca, precisamos de falar dos princípios humanitários universais, que devem ser respeitados durante os conflitos armados. Ou, dito de outra maneira: aos horrores e às atrocidades que diariamente assistimos, através das imagens transmitidas pelos canais televisivos, necessitamos de contrapor e defender o Direito Humanitário Internacional. Ninguém pode aceitar que sejam lançadas bombas sobre civis, escolas, hospitais, pontes, linhas férreas, barragens ou infraestruturas destinadas à produção energética de toda a população. Ninguém pode aceitar que sejam cometidos crimes de guerra. Há regras que têm que ser observadas pelas partes em confronto. Há limites que não podem ser ultrapassados. As localidades, urbanas ou rurais, não podem ser atacadas indiscriminadamente. As civilizações não podem ser incineradas à bomba. Inquestionável.Compreende-se, por isso, que todas as pessoas se interessem pela atividade humanitária, que terá, inevitavelmente, de ocupar uma importância principal no pensamento. É uma questão de humanismo e inteligência.Muitos leitores lembrar-se-ão que, em 2017, ao ter atingido o limite de idade, aos 70 anos, terminei as funções que desempenhava na Direção-Geral da Saúde e que, logo a seguir, cumpri o mandato de Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, com o estatuto de voluntário, entre 2017-2021. Tenho, assim, redobrada razão para poder intervir no debate sobre os fundamentos da ação humanitária.Começo pelo princípio.A Itália estava dividida em diversos estados até à unificação alcançada em 1861. A Independência, proclamada nesse ano, resultou de uma longa sequência guerras, designadamente contra o Império Austríaco. Neste processo, a 24 de junho de 1859, as tropas italianas do rei da Sardenha, Vítor Emanuel II, derrotaram as forças da Áustria, em Solferino. No final do dia, os mais de 300 mil soldados dos dois exércitos envolvidos no confronto deixaram no terreno, ensanguentado pela carnificina, cerca de 40 mil feridos e seis mil mortos. Um horror testemunhado por Henry Dunant (1828-1910), que aí se encontrava por mero acaso e que, depois, viria a relatar nos termos seguintes: “batalhões inteiros ficaram sem comida; companhias, que haviam recebido ordens para largar as suas mochilas, não tinham absolutamente nada. Em alguns locais não havia água e a sede era tão intensa que os oficiais e soldados bebiam, das poças lamacentas, água imunda e cheia de sangue. Os cavalos fugiam em todas as direções, entre choros de medo e gritos de raiva. Que tamanha agonia e desmesurado sofrimento!”(Continua)