As duas crónicas que hoje têm início destinam-se a posterior reflexão de cada leitor. A época e os eventos descritos são reais. Apenas os nomes foram modificados.Em 1975, Maria do Carmo tinha 29 anos de idade. Na altura, era funcionária pública em Lisboa. Trabalhava como assistente administrativa numa repartição do Estado. Casara-se seis anos antes com o namorado que conhecera ainda nos tempos do liceu. Em Queluz, viviam felizes em apartamento amplo, uma vez que desejavam ter filhos.Pontualmente, às 9h00, Maria do Carmo chegava ao serviço. Começava a selecionar a correspondência entrada e a datilografar os ofícios para serem assinados pelo doutor Silva, que era o seu chefe de Divisão. José Silva era um jurista, formado pela Faculdade de Direito de Lisboa. Ainda jovem, aparentava ter pouco mais de 30 anos de idade, era por todos que aí trabalhavam considerado como muito educado e atencioso, tido como pessoa discreta. Apesar do “verão quente”, próprio da altura, ninguém conhecia as suas tendências políticas, mas reconheciam a sua dedicação ao interesse publico.Um certo dia, depois dos assuntos diários despachados, pouco antes da hora de saída, Maria do Carmo bateu à porta do gabinete do doutor Silva, entrou e em tom emotivo, mas convincente e corajoso, perguntou-lhe:— Senhor doutor, desculpe a minha ousadia, mas queria convidá-lo para irmos os dois dormir a um quarto do hotel aqui em frente. O meu marido já reservou um quarto e ensaiou comigo esta conversa.— Ó Dona Maria do Carmo, está a pedir-me para eu dormir consigo?— É isso mesmo, senhor doutor! Eu e o meu marido tentamos desde há seis anos ter uma criança, mas até agora sem resultados. Consultámos muitos médicos especialistas e realizámos imensos exames. Por fim, concluíram que o problema era ele, porque tinha tido papeira em criança, que provocou lesões nos testículos. Aquilo funciona, mas não produz espermatozoides. Foi ,então, que me perguntou se havia alguém simpático e com boa figura que trabalhasse comigo. Eu respondi-lhe que o único de jeito era o meu chefe. Foi ele que planeou tudo. Percebe?— Entendo bem. Eu sou o tal jeitoso. Então pretende que seja hoje?— Sim, tem mesmo de ser hoje. Segundo o médico nos disse, a elevação da temperatura corporal que todos os dias avalio, logo ao acordar, indica o dia da ovulação do meu ciclo. Isto é, estou em fase fértil.— Assim sendo, vamos a isso. É um prazer poder ser útil desta maneira.— Ó doutor, obrigada. Fico à sua espera junto à paragem do autocarro.No dia seguinte, Maria do Carmo entrou de férias até ser transferida para outro departamento.(Continua) franciscogeorge@icloud.com