Se, no último domingo, um cidadão tivesse acordado de um coma prolongado e ligasse a televisão teria concluído que, nas eleições que nesse dia ocorreram, ninguém tinha perdido.Por uma razão, ou por outra, todos tinham ganho.Bem sei que muitos querem fazer crer que a separação entre esquerda e direita não faz sentido nos tempos de hoje.Confesso que penso o contrário, e não é por facilidade argumentativa. É pela simples razão de que quando todos pensarmos igual, sem referências, nem balizas, o mundo estará num caminho de unanimismo e de não- -diferenciação que negam a própria natureza humana.Por muito que isso me custe, no último domingo a esquerda não ganhou as eleições.Quem ganhou foi um cidadão que, com um percurso conhecido, e nunca negado, num partido social-democrata, e posicionando-se sempre dentro do seu ideário, conseguiu agregar muitos cidadãos do espaço central e democrático da sociedade portuguesa e o que resta dos que tradicionalmente se posicionam à sua esquerda.Registo, ainda, que nunca caiu na tentação que alguns lhe tentaram sugerir, para lhe fragilizar o mandato, de que seria um candidato que corporizava uma frente republicana de salvação do regime.Acontece que, como já disse, se a esquerda não ganhou, a direita perdeu as eleições presidenciais.É, aliás, ensinamento inequívoco desta eleição que as eleições, em Portugal, se ganham ao centro. Ensinamento com décadas de que, por vezes, os protagonistas políticos se esquecem.E, nesta derrota da direita, há várias direitas.Uma certa direita que em público se recusa a sê-lo e que perdeu por omissão; outra, com contas antigas para ajustar com a democracia, ainda que o não diga, perdeu por ação; outra, ainda, porque disputou as eleições até ao fim e as perdeu.Admito, aliás, que todas as direitas iniciem um período politicamente interessante de busca e criação de novos protagonistas, enquanto se vão digladiando nos clássicos palcos da comunicação social, no lançamento de livros ou em conferências e comentários televisivos.Será, porventura, uma inevitabilidade. Inevitabilidade que o país dispensava e que ao próximo presidente eleito não facilitará o desempenho.Portugal precisa de tranquilidade e responsabilidade, mas, não precisa de hipocrisia ou dissimulação.A 9 de março, quando o novo Presidente da República tomar posse, a esquerda não tem uma vitória, mas, a direita, as várias direitas, tiveram uma derrota. Advogado e gestor