Tão fina é a pele do trilionário nazi, hã?

Elon Musk, que tantas vezes se apresentou como campeão da liberdade de expressão, deu uma entrevista e não gostou das perguntas. Vai daí, chamou “traidora do Ocidente” à jornalista— o que, em 'muskês', é apelar ao seu assassinato.
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Devemos ter medo de Elon Musk? A pergunta é feita pela revista britânica The Economist na capa da sua última edição (de 25 de julho), na sequência da longa entrevista que o magnata tecnológico lhe concedeu (publicada, em vídeo/podcast, no dia anterior). 

A 26 de julho, Musk, que passou os últimos dias a republicar, no Twitter/X (a rede social que é sua propriedade desde 2022), para os seus 240 milhões de seguidores, elogios a si próprio e insultos à jornalista que o entrevistou, deu uma espécie de resposta à pergunta da revista, apelidando a entrevistadora, a editora-chefe da Economist, Zanny Minton Beddoes, de “traidora do Ocidente, pura e simplesmente”

É uma acusação que o alegado trilionário faz com frequência: ainda a 8 de julho usou a mesma formulação para o museu norte-americano Smithsonian. Mas vale a pena mergulhar nas suas prolixas publicações no Twitter/X, repletas de notícias sobre homicídios e outros crimes violentos cometidos por pessoas não-brancas, para perceber o que quer exatamente dizer com ela. 

A 6 de julho, por exemplo, repostou uma publicação sobre o presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, em que este é denominado de “imã [clérigo muçulmano] comunista”, comentando: “Traidores antes dos invasores”. A 5 de julho, escreveu: “Qualquer um que não ame a América é um traidor e merece desprezo. Aqueles que não amam a América, aqueles que são desleais, devem ser exilados imediatamente.” A 3 de julho, concordou com a afirmação de que Mamdani deveria ser “arrancado do seu cargo, desnaturalizado e deportado”.

A 29 de junho, em resposta a uma publicação na qual se alega que uma feminista alemã promove o slogan “a minha linhagem acaba em mim” e “apela às pessoas brancas para que não tenham filhos”, Musk escreve: “Tratem dos traidores primeiro, e dos invasores depois.” E no dia anterior, o do seu 55º aniversário, respondeu “sim” ao comentário “não vale a pena estar a tirar água do barco se os traidores estão a fazer buracos no fundo”, o qual era acompanhado da foto de um homem a apontar uma pistola e a legenda “primeiro os traidores, depois os invasores.” 

A foto é do ator Armie Hammer e uma das imagens promocionais do filme Citizen vigilante, sobre o qual Musk disse no mesmo dia: “Isto é o que as pessoas querem ver.” Na dita película, distribuída a 19 de junho, um norte-americano rico (e branco), interpretado por Hammer, dedica-se, num país europeu não identificado, a executar gente, incluindo polícias e juízes, em nome de uma cruzada contra imigrantes muçulmanos e funcionários “woke”.

Como reportou a BBC esta segunda-feira, Musk repostou no Twitter/X um comentário no qual as execuções encenadas no filme são descritas como “uma resposta moderada” aos crimes violentos cometidos por imigrantes

Já a frase “primeiro os traidores, depois os invasores” tem como referência mais óbvia a novela The Turner Diaries, de 1978, a qual descreve uma revolução violenta na qual um grupo supremacista branco, intitulado “A Organização”, leva à queda do governo norte-americano e a uma “guerra racial” mundial na qual os não-brancos e os judeus são exterminados, assim como os brancos considerados “traidores à raça”. Poderia considerar-se o livro uma distopia se não tivesse existido o nazismo; assim, será de saudosismo que se trata.  

É à luz desta informação que deve ser lida a qualificação de Zanny Minton Beddoes, que aliás começou a entrevista a dizer que o admira, como “traidora ao Ocidente”: ante as suas centenas de milhões de seguidores, Musk está a dizer que a jornalista merece a morte.

E porquê? Porque ela o questionou, precisamente, sobre as coisas, muitas delas falsas e quase todas odientas, que diz no Twitter, chamando-lhe a atenção para a responsabilidade que vem com o poder — no caso dele, multifactorial graças não só ao número de seguidores e ao facto de ser dono da plataforma, como à sua capacidade de influência política e económica — e ridicularizando algumas das suas afirmações (como a de que o Reino Unido está prestes a entrar em guerra civil — devido, claro, aos imigrantes “não-brancos”).

Só se pode compreender que a reação de Musk à entrevista da Economist não esteja a causar mais choque pelo estupor amorfo causado por anos e anos de imprecações e vinganças trumpianas (e dos seus seguidores e imitadores) contra todo e qualquer crítico, nomeadamente contra jornalistas. 

Parece que o homem mais rico do mundo passar a vida a apelar ao vigilantismo homicida contra aqueles que vê como “traidores”, ecoando os mais totalitários e nazis manifestos, enquanto descreve a Europa como um lugar onde os brancos estão a ser chacinados e discriminados, é só um fait-divers

O único consolo perante tudo isto é perceber que para Musk, como para tantos outros (a começar por Trump), o imenso poder económico, social e político que detém não é impedimento de que sinta qualquer questionamento ou crítica como um ataque insuportável que só pode ser sanado com o silenciamento/obliteração do autor. 

Ou seja: ainda há esperança; a resistência é possível. Respondendo à Economist, devemos ter medo de Musk, sim. Devemos ter muito medo. Mas sabendo isto: ele tem medo de nós. Há que dar-lhe, e aos como ele, todas as razões que pudermos, enquanto podemos.

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