Passada a eleição presidencial portuguesa, com Seguro a ganhar Belém e Ventura “a Direita”, dir-se-ia chegada a hora de a comunicação social instalada começar a procurar instrumentos para navegar os ignotos mares da direita e das direitas, até para encontrar razões para o crescimento daquilo a que chama “extrema-direita” ou “direita iliberal”.Mas parece que ainda não será para já. Parece que, por enquanto, pretende continuar a socorrer-se do “atraso mental” e da “baixa escolaridade” da tranche de povo dócil ao “populismo iliberal” de Ventura, e à elevada taxa de rejeição eleitoral do seu partido “fascista”. E já que parece agora ser o dito partido de Ventura a determinar tudo, por que não ilegalizá-lo, pondo fim a todos os problemas?Esta cegueira e esta ignorância sistémicas em relação a muitas das realidades e das ideias que estão aqui em jogo só nos podem levar a concluir que, afinal, “a falta de instrução” e “o atraso mental” estão longe de ser um exclusivo dos eleitores do Chega. De resto, meio século de lavagem do cérebro teria de ter consequências; meio século em que a classe política dirigente, que nos foi governando e se foi governando, entregou os instrumentos da cultura e da propaganda política à esquerda “intelectual” radicalizada.Daí resultaram uma série de dogmas históricos, desde a equiparação do Estado Novo de Salazar ao Terceiro Reich de Hitler, à redução da colonização portuguesa à exploração de recursos e à escravização de indígenas, e de dogmas actuais, como o que ensina que, à esquerda, só existe “Ciência” e “Humanismo” - de onde as leis e recomendações conformes com as mais absurdas causas do wokismo, passadas com a cumplicidade de “centristas”, que ora reivindicam o centro ou o centro-esquerda e rejeitam a designação de direita, ora se ressentem com a “usurpação da Direita” em curso.Entretanto, no Parlamento Europeu, seguem a Ciência e o Humanismo.Está aí a Comissão das Nações Unidas sobre o Estatuto da Mulher e foi nesse âmbito que o Parlamento Europeu quis lavrar a recomendação de que, para todos os efeitos e direitos, os homens biológicos médica e cirurgicamente transmutados em mulheres fossem considerados mulheres de pleno direito. A recomendação foi aprovada por 340 votos contra 141 e 68 abstenções; ou seja, foi aprovada não só pela colecção das esquerdas, mas também pela maioria dos deputados do Partido Popular Europeu, de “Centro-Direita”.E para que, por uma questão de “humanidade e rigor científico”, nada pudesse ofender, micro-agredir ou toldar a usurpação da feminilidade, digo, o desejo de pleno acesso dos homens à feminilidade, o Parlamento Europeu rejeitou ainda com 233 votos contra, 200 a favor e 107 abstenções uma emenda que lembrava: “Apenas mulheres biológicas podem engravidar.”Era, de resto, natural que a emenda não passasse, uma vez que, em nome de um qualquer realismo e “focada exclusivamente na definição biológica de mulher”, a emenda era castradora, ofensiva, reaccionária, pouco tolerante, que é como quem diz, de “extrema-direita”.E este é o Parlamento Europeu que temos. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia