O mito do “Estado que dá”: o dinheiro é nosso, a incompetência é deles

Da infantilização à dependência, como as esquerdas e direitas coletivistas invertem a moralidade para esconder que o Estado chega sempre tarde e mal.
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Quando a natureza se manifesta com fúria em Portugal, o guião é tão previsível quanto o atraso do socorro estatal. Mal as águas baixam (ou os incêndios se apagam) surgem as duas faces da mesma moeda estatista - a esquerda e a direita coletivista - a disparar em uníssono. Uma a acusar os “ultraliberais” de silêncio nestas situações, porque “só o Estado pode salvar” as pessoas; outra a clamar pela intervenção em nome do “interesse nacional” ou da “proteção das populações”. É uma vitória pírrica do dirigismo, assente numa inversão de raciocínio que envenena o debate: a ideia de que o Estado possui recursos próprios e que, por uma bondade intrínseca, decide partilhá-los com os súbditos em agonia.

É preciso repor a verdade básica: o Estado não ‘dá’ nada. O Estado não produz riqueza, nem cria um cêntimo. Tudo o que os agentes políticos e ‘públicos’ gerem é fruto do trabalho de cidadãos que viram o seu capital ou simples salário ser-lhes retirado compulsivamente. O imposto não é uma doação voluntária, é um pagamento forçado sob a promessa de um retorno na forma de proteção. Quando esse serviço falha - e falha sistematicamente, em todos os setores essenciais -, o que temos não é “falta de mais Estado”, mas o puro parasitismo de uma estrutura que consome o hospedeiro enquanto o convence de que ele é o seu suporte de vida.

Milton Friedman explicou-o com uma clareza contundente. O Estado opera quase sempre no quadrante mais ineficiente da despesa: gastar o dinheiro de outros com outros. Não há incentivo para a poupança, nem para a qualidade. É por isso que a ajuda estatal chega sempre tarde e burocratizada. O coletivismo de esquerda quer o Estado como o grande provedor; o coletivismo de direita quer o Estado como o grande protetor corporativista. No fim, ambos concordam num ponto - o cidadão é incapaz de gerir o seu próprio risco e o seu próprio dinheiro. Querem pessoas infantis e dóceis, de pensamento “poucochinho”, para que as suas respetivas elites ordenem em nome do “bem comum” (seja lá o que isso for).

A Escola Austríaca ensina-nos que o preço é o único sinalizador real de valor. Ao suspender esta lógica, o Estado substitui a eficácia pela conveniência política. Thomas Sowell, na sua Visão dos Ungidos, descreve este fenómeno: as políticas não são avaliadas pelos resultados, mas pelas intenções. Se o governante - seja ele “progressista” ou “nacionalista” - anuncia um fundo de milhões, a narrativa está salva, mesmo que o dinheiro se perca nos corredores da Administração ou que chegue quando já nada há a salvar. É incrível como continuamos a cair nesta armadilha!

O mais trágico nesta infantilização da população é a ausência de consequências. Aqueles que gerem mal os fundos, que falham na prevenção e que tardam no socorro, raramente são punidos. Pelo contrário, são frequentemente promovidos para palcos internacionais, blindados pela máquina que criaram. Enquanto isso, o cidadão é mantido de mão estendida, condicionado a agradecer as migalhas de um pão que foi ele próprio quem pagou.

Não precisamos de mais Estado, venha ele com bandeiras vermelhas ou rosas, azuis e amarelas. Precisamos de devolver ao cidadão a dignidade de ser dono do seu destino. O suicídio coletivo de uma nação começa quando ela aceita que a sua sobrevivência depende da “generosidade” de quem a saqueia. Temos de parar de agradecer o que nos pertence por direito e exigir contas a quem, tendo o nosso dinheiro na mão, nos deixa sozinhos à chuva.

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