Que tipo de Administração Pública tem Portugal? Nestas páginas do Dinheiro Vivo, o presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, Armindo Monteiro, diz que é “consensual” a ideia de que “temos um Estado disfuncional, despesista e com redundância de funções, serviços e instituições”. As sucessivas tentativas de vários governos – de ambos os partidos do arco da governação – de fazer uma reforma profunda do Estado dão corpo a esta ideia. O problema da frase anterior é a palavra “tentativas”.Tomemos como exemplo o número de funcionários públicos. Enquanto esteve na oposição — quer como coordenador do Conselho Estratégico Nacional (CEN) do PSD, quer como líder da bancada parlamentar social-democrata — Joaquim Miranda Sarmento defendeu de forma aguerrida o congelamento do número absoluto de funcionários públicos. Antes de ser ministro das Finanças, Miranda Sarmento criticou o “engordamento” do Estado durante os anos de governação PS de António Costa. Ao longo de oito anos, constatava, o número de funcionários subiu em cerca de 100 mil trabalhadores. Apesar deste crescimento, dizia, não houve melhoria dos serviços públicos, nomeadamente na saúde, na educação e na justiça.Na semana passada, ficamos a saber os números finais de trabalhadores das administrações públicas em 2025. De alguma forma, não correspondem às ideias que Miranda Sarmento tinha na oposição. No final do ano passado, o Estado português empregava 7.278 funcionários, mais 12.700 do que no final de 2024. O número, aliás, não tem parado de crescer. Todos os anos. Face a 2014, o Estado português tem mais cerca de 110 mil funcionários.Comparando com outros países europeus, o problema não parece ser o número.Longe disso. Em 2023, por cada mil habitantes, Portugal tinha 74 funcionários públicos. Parece muito, mas não é. A média dos Estados-membros neste indicador é de 94 funcionários por cada mil e apenas países como Espanha (7,9), Itália (0,3) e Alemanha (3,8) são relativas exceções a administrações públicas bem repletas de mão de obra. A questão é que países como a Alemanha fizeram uma verdadeira digitalização, utilizando a tecnologia para que os vários organismos partilhem informação entre si, simplificando os processos que antes atavam funcionários públicos a horas de trabalho e entregando-os aos cidadãos, que os executam por si e a partir do seu PC.Há tempos fui mudar (porque, por alguma razão, é obrigatório) a morada no Documento Único Automóvel. Não o pude fazer online. Recorri a uma loja do cidadão, onde preenchi um extenso formulário com todo um arsenal de informação que o Estado já tem. Sei que o tem porque já tinha mudado a minha morada fiscal; porque o Fisco tem o registo do meu carro. Na prática, nem deveria estar ali. A simples matrícula no sistema do Estado deveria permitir confirmar que mudei de morada.A senhora no guichet pegou no papel e teclou toda a informação que lá estava num computador do Estado. O Estado já a tinha no IMT, no Fisco, na Segurança Social, mas ficou a ter outra vez. No final pediu-me a quantia que estava escrita no formulário. Paguei, tal como antes de mim, nos anos 90, o contribuinte alemão já tinha pagado para a nossa modernização administrativa ou o contribuinte holandês para a digitalização e o Simplex dos anos 2000.Perdi uma manhã e parte da esperança na ideia de que o Estado português quer mudar de vida.