Justiça sim, mas não popular!

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Misturar política com desporto (normalmente futebol) é altamente criticável. Todavia, ainda mais o é quando se verifica uma intromissão de agentes políticos com objetivos eleitoralistas, fazendo recurso à demagogia e ao populismo, em assuntos fraturantes do ponto de vista social.

No caso em concreto, é com um misto de tristeza e enorme preocupação que se assiste à partidarização de um incidente absolutamente lamentável: a morte de um cidadão às mãos das forças de segurança.

Antes de olhar para um conjunto de fatores, é importante lamentar a perda de qualquer vida humana até porque um agente ou força de segurança tem sobre si o especial dever de cuidado na defesa dos cidadãos.

Na sequência do acontecimento, e por este ser um Estado de Direito, as instâncias competentes entraram de imediato em ação: foi aberto um inquérito e estão a ser investigadas as circunstâncias em que se deu o infeliz episódio.

Por mais difícil que seja permanecer na passividade, qualquer especulação nesta fase é contraproducente e só levará a mais exaltação e indignação. As instituições precisam de tempo para levar a cabo um trabalho de investigação sério. Relembre-se que a Justiça é um dos principais garantes dos direitos consagrados e só com o apuramento de todos factos é que as conclusões terão substância.

Voltando ao inaceitável, a partidarização feita em torno deste assunto é vil e tem tentado instrumentalizar a sociedade da pior forma possível. Trata-se de afirmações vergonhosas por parte da extrema-direita que, vindo a “terreiro” numa suposta defesa das forças de segurança, o que fez foi incitar a mais violência.

Esta “política de apelo ao sentimento”, ao instinto mais primário do ser humano, obviamente intolerável, traz também questões de legalidade e legitimidade. Esse partido irresponsável brincou com o sentimento de perda daqueles que já sofrem na pele as dificuldades da vida, querendo daí retirar benefícios com o apelo a uma “revolta” mascarada de pedido de justiça. Tudo isso enquanto as instituições realizam o seu trabalho.

É essencial que se apure o que realmente aconteceu e que daí se promova a verdadeira e legítima justiça. Este deverá ser um processo imaculado e, para tal, não deve estar ferido à partida, separando ou dividindo a sociedade. Por essa razão, os atos de barbárie e de violência contra pessoas ou bens, testemunhados nos últimos dias, não são admissíveis numa sociedade que se pretende justa, solidária e fraterna.

Como remate, ao invés de tentar manipular as pessoas, os políticos deveriam tentar perceber como se chegou até aqui. Essa perceção poderá ser o início de um caminho para rever ou alterar as políticas que não ajudam a que todas e todos tenham condições de vida dignas. Lisboa, hoje mais do que nunca, deve trabalhar para ser só uma e não várias. Num Estado de Direito, prevalece a Justiça mas não a justiça popular.

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