Extrema-esquerda, extrema-direita e o critério que importa

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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A discussão sobre extremismos na Europa tem sido muitas vezes reduzida a uma hierarquia de riscos que privilegia a extrema-direita como ameaça dominante. Esse enquadramento é compreensível num continente onde a violência identitária, o racismo e o antissemitismo continuam a ser realidades graves. Mas a análise fica incompleta se, em nome desse foco, se desvalorizar a extrema-esquerda e o seu potencial de subversão institucional.

A distinção relevante não é entre esquerda e direita. É entre tipos de ameaça. Se o critério for violência dirigida a minorias e normalização do ódio, a extrema-direita pesa mais. Se o critério for erosão do Estado, intimidação institucional e legitimação da ruptura violenta, os segmentos radicais anti-sistémicos da esquerda merecem uma atenção que os discursos públicos continuam a subestimar. Os dois critérios são válidos. Nenhum deve apagar o outro.

A história europeia do pós-guerra fornece a genealogia. O ETA nas suas origens, os GRAPO em Espanha, a Fração do Exército Vermelho na Alemanha. Todos eram organizações estruturadas que nasceram em ambientes revolucionários ou marxistas e evoluíram do protesto radical para o terrorismo organizado. Não são um modelo que se repete mecanicamente. São advertências sobre as condições que tornam essa deriva possível: populismo anti-sistema, culto da ruptura e legitimação progressiva da violência como instrumento político.

No presente europeu, essas condições voltaram a estar presentes, ainda que em formas distintas. Os grupos anarquistas e autonomistas activos em Itália e na Grécia, as redes de acção directa que operam sob a designação genérica de antifa em vários países do norte e centro da Europa, ou as mobilizações de rua que em França ultrapassaram sistematicamente os limites do protesto cívico, revelam ecossistemas radicais com capacidade de organização e violência táctica. Estruturalmente diferentes das organizações do século XX, mas reconhecíveis nos padrões de legitimação que cultivam. O problema não está apenas nos grupos formalmente clandestinos. Está nos ambientes políticos e culturais que relativizam o ataque ao Estado, demonizam as instituições democráticas e tratam a violência simbólica como prelúdio aceitável de acção política. É nesses ecossistemas que a subversão se torna socialmente tolerada e politicamente transmissível.

Um desses vectores merece atenção específica: o regresso de formas de antissemitismo que se apresentam sob a capa do anti-sionismo. Nem toda a crítica a Israel é antissemita. Mas a fronteira é frequentemente ultrapassada quando a hostilidade ao Estado israelita se converte em demonização dos judeus enquanto colectivo, em linguagem conspirativa ou em negação do direito à existência de Israel. Este fenómeno não é marginal em certos segmentos radicais da esquerda europeia. É um vector de radicalização, um ponto de contacto entre diferentes tradições de ódio e um alvo preferencial de instrumentalização externa.

Porque o quadro não se completa sem Moscovo. A guerra híbrida russa não tem família ideológica preferida. Explora todas as fracturas disponíveis: da extrema-direita à extrema-esquerda, da hostilidade anti-imigração ao anti-americanismo, do anti-NATO ao anti-sistema, do anti-sionismo ao populismo identitário. O objectivo não é promover uma causa. É agravar a polarização, enfraquecer a confiança nas instituições e criar um ambiente em que a verdade se torne relativa e a violência pareça justificável. A desinformação não é ruído de fundo neste processo. É a tecnologia central de destabilização. Alimenta narrativas simplistas, converte frustrações em ódio político e amplia a capacidade dos extremos para recrutarem, mobilizarem e normalizarem o ataque às estruturas democráticas. Portugal não está imune a esta pressão. As nossas instituições de segurança, o espaço público mediático e os ecossistemas de radicalização online são terreno de operação, não território neutro.

Há, por isso, uma hierarquia de atenção que precisa de ser reequilibrada. A ameaça mais séria não é a que grita mais alto. É a que combina desinformação, radicalização e ataque sistemático às estruturas do Estado democrático. A extrema-direita não desapareceu do mapa de risco. Mas subestimar os segmentos radicais anti-sistémicos da esquerda, os seus ecossistemas e a sua permeabilidade à instrumentalização russa seria um erro estratégico com precedentes históricos bem documentados.

A Europa já pagou esse erro. Não precisa de o repetir para o confirmar.

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