Estará a Europa entre Vénus e Marte?

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Há 20 anos Robert Kagan, um dos principais proponentes do neoconservadorismo americano, que contribuiu para a construção teórica da Presidência de George W. Bush e que apoiou Hillary Clinton contra Trump em 2016, escreveu um artigo onde argumentava que enquanto a Europa vivia num paraíso de paz, onde os problemas se resolviam através das organizações multilaterais e negociações internacionais, os Estados Unidos viviam num sistema internacional marcado pelo conflito e pela  possibilidade ou mesmo pela necessidade de recorrer às Forças Armadas para fazer face às crises e aflições do mundo. Embora partilhando o objetivo comum de promover os princípios do liberalismo democrático de raiz ocidental, Kagan concluía que “os Americanos são de Marte e os  Europeus são de Vénus”.

E até hoje a Europa mantém-se fiel à sua matriz democrática e pacífica, procurando contribuir para a solução dos problemas que enfrentamos através de instrumentos de cooperação, regulatórios, legais, financeiros e de política comercial, entre outros, e que foram a base do discurso que a presidente da Comissão Europeia fez no Parlamento Europeu depois da sua recente reeleição.

É certo que a invasão da Ucrânia, violando os princípios da Carta das Nações Unidas e as bases em que a União Europeia se funda, começou a mudar o papel de Bruxelas no mundo. De facto, há dois anos, poucos acreditariam que a UE fosse capaz de manter uma política de Defesa Militar unida contra Moscovo e, no entanto, foi o que aconteceu. Mas será suficiente?

Enquanto escrevo estas linhas acompanho em direto as várias discussões e debates sobre a decisão do presidente Joe Biden de não se recandidatar à Casa Branca e, não tendo uma bola de cristal, não arrisco o resultado das eleições de novembro. Mas arrisco afirmar que, se o candidato republicano regressar ao poder, o papel dos Estados Unidos no mundo mudará e os laços transatlânticos que têm permitido manter a paz na Europa ao longo dos últimos 75 anos serão postos à prova, o que poderá levar a União Europeia a ter de repensar o seu papel em conflitos externos.

Se a União Europeia for forçada a ser mais “de Marte” e menos “de Vénus”, estaremos perante uma mudança muito mais profunda do que se poderia supor. De facto, e apesar das muitas  competências que Bruxelas tem, os Estados da UE têm mantido uma reserva de decisão sobre as áreas consideradas de soberania, nomeadamente a política Externa, de Segurança e de Defesa, que exige hoje o acordo implícito de todos os Governos para ser aprovada mas que, no futuro, poderá contemplar alguns países a serem obrigados a aceitar a participação da União em conflitos com os quais não concordam. Para a UE, ser “de Marte” pode significar mudar quase tudo.

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