Três milhões, quatrocentos e oitenta e dois mil, quatrocentos e oitenta e um portugueses e portuguesas entregaram o voto a António José Seguro. Em cada um deles há associada uma expectativa, um problema, uma ansiedade, um desejo, uma esperança, um sonho, um objectivo a realizar e a carecer de apoio. E então Presidente Eleito, como vai responder à confiança que dois terços de portugueses lhe entregaram? Na lógica da exigência que prometeu, mantendo a estabilidade e a cooperação institucional com o Governo, o que vai fazer e como vai fazer, se não surgirem os resultados?Não queremos ser pessimistas, não é! Mas metendo a mão na consciência, acha mesmo que este Governo está em condições operacionais de responder e agir com destreza e com resultados positivos? Montenegro parece adormecido! O Presidente Eleito não falou de Justiça no seu discurso de vitória. Com certeza não ia poder falar de tudo, mas um megaprocesso em Portugal pode demorar entre 15 a 20 anos e na Finlândia, país europeu como nós, um processo dos mais complexos fica resolvido de 5 a 7 anos. Como é que vamos solucionar isto, Presidente Eleito?E a corrupção e a transparência? Como vai ser? A Entidade da Transparência tem apenas três técnicos para analisarem as centenas de declarações de rendimentos de políticos. Três técnicos só? Será de propósito, Presidente Eleito? Há dezenas de declarações que ainda não foram analisadas. Mas, com tanto funcionário público na máquina do Estado, não se encontram técnicos para a Entidade da Transparência. Acha possível, Presidente Eleito? É que Portugal registou em 2025 o pior resultado de sempre, repito, de sempre no índice de Percepção de Corrupção (Transparency International)Um outro assunto!O seu antecessor, ainda a ocupar o Palácio de Belém, prometeu, solenemente, acabar com os sem-abrigo durante o seu mandato e, por cá, existem agora 14.500. E então, Presidente Eleito? O que vai ser feito com esta situação? Mais promessas não vale a pena, não é! Já ninguém acredita.E “a talho de foice”, como diz o povo, já que falamos em sem-abrigo, como é possível, num país da Europa civilizada, que uma mulher, justamente, uma sem-abrigo, entre em trabalho de parto numa tenda situada numa das entradas principais do Centro Comercial da Mouraria, no Martim Moniz. Pois é, é a Saúde, Presidente Eleito! A saúde onde quem precisa de um consulta de Oftalmologia passada por um médico de família (quando há) tem de esperar dois a três anos.E depois, Presidente Eleito, há os pobres. Cerca de dois milhões de portuguesas e portugueses em risco de pobreza. Como vamos fazer, Presidente Eleito, para terminar, de uma vez por todas, com esta chaga social?Sabemos como é sensível e humano com esta situação, mas isto já dura há anos e nunca mais vemos uma luz ao fundo túnel!E já que falámos em túnel, lembrei-me agora dos comboios e da CP, essa empresa pública-cancro nacional que há décadas nos rói o Orçamento de Estado. Estava você ainda a tratar da sua vida privada, quando Pedro Nuno Santos resolveu comprar, em novembro de 2023, 117 comboios espanhóis. E tanto que nós precisamos deles! Mas a compra foi feita de tal modo, e tão disparatada, que acabou tudo em tribunal entre as empresas Stadler e a espanhola CAF. Uma operação (?) que nos fez perder 191 milhões de euros de ajudas europeias que eram a fundo perdido. Os comboios deviam chegar até 2030, mas agora sabe-se lá! Mas, Presidente Eleito, por que é que as compras neste país acabam sempre assim? Em Tribunal e com prejuízo para o erário público. É sina nossa ou isto é o quê?Bom e o tempo vai passando. Um destes dias para a chuva que, até agora, já nos terá causado um rombo no PIB (cerca de 0,5%, dizem) e depois da primavera, pela qual ansiamos, vem o verão e, com ele, os incêndios. Como vai ser, Presidente Eleito? Vamos ter aviões no ar, que nos custam rios de dinheiro à hora, ou vamos fazer prevenção? É assim tão difícil prevenir?Está tudo nos livros! Limpar as matas, fazer faixas de contenção à volta das aldeias, das cidades e das infraestruturas, aumentar as áreas de pastagens e agrícolas, montar torres de vigilância, câmaras e sensores que detetem o fogo, plantar mais sobro, carvalho e azinho, cortando no eucalipto e dando um pontapé no lobby das celuloses e, claro, reestruturar todo o sistema de combate a incêndios com a criação de um comando único. Temos instituições, funcionários, técnicos para fazer isto. Então por que não fazem?Depois, Presidente Eleito, há os jovens. São o futuro do país, não é? Entre 2012 e 2021 emigraram 194 mil jovens licenciados e 40 % dos que, hoje, acabam a faculdade só pensam em ir lá para fora. Perdemos o melhor que temos, não é? E os professores? Onde vamos arranjar 20.000 novos professores até 2030 para substituírem os que se vão reformar?Ó Presidente Eleito, fale lá com o Montenegro, que eu tenho ideia de que ele não anda bem! O homem parece perdido! Quem sabe, talvez uma remodelação governamental ajudasse. Depois da demissão na Administração Interna, talvez sangue novo na Saúde, no Trabalho, na Justiça e na Modernização Administrativa animasse a malta!Uma coisa é certa. Os três milhões, quatrocentos e oitenta e dois mil, quatrocentos e oitenta e um portugueses e portuguesas que votaram em si vão querer cobrar esse voto. Não há almoços grátis, Presidente Eleito. Se tudo continuar na mesma, parte considerável da responsabilidade vai ser sua. E o Chega lá estará à espreita, como sempre, qual ave de rapina, que se aproveita dos restos e, com eles, vai crescendo.