No início de mais um ano letivo e no meio do debate sobre os resultados do relatório PISA e sobre as oportunidades e riscos da inteligência artificial, talvez seja tempo de refletir sobre a degradação de competências dos alunos e sobre o futuro que queremos para o nosso sistema educativo na era digital.
Antes da inteligência artificial já tínhamos duas escolas em confronto. Uma escola mais liberal, que fala em competências e empregabilidade, que trata o aluno como uma peça a preparar para o mercado de trabalho e que considera dispensável ensinar o que não seja imediatamente aplicável. E uma escola mais assistencialista, herdeira de um relativismo cultural profundo, que teme exigir, que confunde proteger com facilitar e que transformou a avaliação num gesto de compaixão em vez de um instrumento de verdade.
A inteligência artificial não veio resolver este impasse. Veio dar a cada uma destas escolas exatamente aquilo que já queria. À escola das competências, deu uma desculpa perfeita para deixar de ensinar conteúdo, afinal a máquina sabe tudo e sabe mais depressa. À escola paternalista, deu um instrumento de alívio imediato, uma forma de poupar o aluno ao esforço de ler, escrever e errar, sob a capa graciosa da inclusão.
O problema é que ninguém nasce a pensar, pois aprende-se a pensar pensando, a escrever escrevendo, a ler persistindo em textos difíceis e a argumentar contra quem discorda de nós. A abstração, o raciocínio, o sentido crítico não são um dado inato que a escola apenas desperta, são uma construção lenta, feita de esforço repetido e de frustração superada. Quando se delega essa construção a uma máquina que devolve o resultado já pronto, não se poupa tempo ao aluno, rouba-se-lhe o essencial da sua aprendizagem.
Já se nota o resultado nas salas de aula, em que professores descrevem hoje gerações inteiras de jovens que sentem tudo com grande intensidade e que não têm palavras para o dizer. É um paradoxo cruel que a ferramenta mais sofisticada de sempre no domínio da linguagem tenha chegado precisamente ao momento em que menos pessoas dominam a própria língua. Uma inteligência artificial não pensa, recombina estatisticamente aquilo que a humanidade já escreveu. Quem deixa de fazer isso por si mesmo não ganha um atalho, pois limita-se a perder a voz.
É a mesma lógica que descrevemos quando falamos sobre soberania digital. Um país que entrega os seus dados e a sua infraestrutura crítica a fornecedores externos perde, com o tempo, a capacidade de perceber o que se passa dentro dos seus próprios sistemas. Um aluno que entrega a um sistema externo a tarefa de escrever, de argumentar e de resumir, perde com o tempo a capacidade de perceber o que se passa dentro da sua própria cabeça. Ao Estado chamamos a isso dependência tecnológica e devíamos chamar-lhe o mesmo nome quando acontece a uma criança.
O mesmo raciocínio serve para a desinformação. Não se combate a mentira decidindo a partir de cima quem pode publicar e quem não pode, em nome do combate às fake news. Combate-se ensinando cada cidadão a interrogar uma fonte, a perguntar quem a escreveu, com que método e com que interesse. Uma escola que renuncia a formar esse hábito não protege ninguém da mentira. Prepara apenas cidadãos que vão confiar cegamente no primeiro algoritmo que lhes responder com confiança.
Também a tentação de moralizar em vez de ensinar produz um efeito tão superficial como um texto gerado por máquina. Dizer a um aluno que deve ser tolerante ensina tão pouco como pedir a um chatbot que escreva um parágrafo sobre tolerância. O que forma um cidadão não é o sermão, é o conhecimento histórico e político suficientemente sólido para que a conclusão ética nasça do seu próprio raciocínio e lhe pertença. Isso não é ensinar, mas catequizar, venha ela de um professor, de um catequista ou de um algoritmo.
O filósofo iluminista Condorcet já afirmava em 1792 que a função da educação é formar cidadãos insubmissos. Na era do algoritmo, a primeira insubmissão exigível é recusar que uma máquina pense em nosso lugar. A escola do futuro não se vai medir pelo número de dispositivos tecnológicos que tem. Vai medir-se pelo número de alunos que ainda sabem pensar sem eles.