Burnout Digital: Qual o impacto da conectividade permanente fora do horário de trabalho?

Ivone Patrão

Professora do Ispa – Instituto Universitário

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O impacto da ligação digital diária, 24h, 7 dias por semana, é real. A hiperconectividade está ao alcance de qualquer um, com um telemóvel à mão, com acesso ao email e às redes sociais.

No contexto clínico, os pedidos de ajuda vêm emoldurados pelos termos “stress”, “ansiedade”, “depressão” e contemplam queixas sobre a necessidade de estar sempre conectado ao lado profissional.

Há uma desregulação entre o que é o investimento no próprio, nas relações e na profissão. O investimento no trabalho passa a ser o mais prevalente, e de forma continua. Ficam de lado o auto-cuidado e a partilha relacional.

A investigação tem assinalado o burnout digital como um dos factores relacionado com piores indicadores de saúde mental. É importante considerar que o contacto com a tecnologia pode causar stress associado à: tecnosobrecarga, uma vez que o ecrã pode obrigar a trabalhar mais depressa ou durante mais tempo, e à tecnoinvasão, pois o trabalho pode invadir a vida privada através de mensagens, emails e notificações.

A sobrecarga e a invasão digital constante têm impacto no bem-estar psicológico. Podem existir alterações no sono, cansaço, procrastinação, falta de satisfação e motivação, problemas físicos, conflitos entre a vida pessoal e relacional, entre outras alterações.

O equilíbrio não passa só pela gestão do tempo de ecrã. Não será só desligar e não responder. Pode existir a expectativa de disponibilidade para responder. E, isso funciona como uma pressão externa, que pode ser um gatilho no período de descanso – “está ali um e-mail, uma mensagem… deveria responder”. É estar Off, mas ao mesmo tempo On.

É importante reduzir a sobrecarga digital e assegurar períodos de recuperação e, para isso, é útil: estabelecer limites de horário: definir uma hora para terminar tarefas, desativar alertas não essenciais e consultar o e-mail ou as mensagens em horários específicos, evitar a multitarefa, fazer pausas do ecrã, reservar blocos sem reuniões, chamadas ou interrupções digitais, alternar entre videoconferências, chamadas de áudio ou mensagens assíncronas, separar espaços da vida pessoal e profissional, evitar o uso intenso do ecrã na hora de dormir.

O reconhecimento de sinais de alerta é essencial, como sejam, a fadiga persistente, a irritabilidade, as dificuldades de concentração, as alterações do sono e a aversão às tarefas digitais. A procura de ajuda é um caminho que pode começar por nomear a sobrecarga junto da chefia e, em paralelo, pela procura de ajuda profissional, sobretudo quando a sintomatologia for persistente ou afetar o funcionamento diário.

O relatório de 2026, apresentado este mês, pela OPP - Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal – indica que “num único ano, o custo estimado da perda de produtividade associada ao stresse e aos problemas de saúde psicológica é cerca de uma vez e meia o investimento atualmente estimado para construir o novo Aeroporto de Lisboa Luís de Camões”.

Este dado é um indicador relevante para as empresas que podem prevenir os riscos psicossociais, tanto no contexto presencial, como no digital. Na relação do trabalho com recurso à tecnologia podem existir medidas que privilegiem o direito a tempos de desconexão, a redução de reuniões desnecessárias, o ajuste nas formas de comunicação e de feedback, a gestão da carga de trabalho, a valorização da autonomia dos trabalhadores, priorizando a monitorização periódica do burnout, da satisfação, do absentismo, do presentismo, e da rotatividade.

O equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal tem, atualmente, mais um interveniente – o ecrã – por isso, passa a ser importante olhar para o equilíbrio entre a vida pessoal e relacional, o uso do ecrã, e a gestão dos compromissos profissionais.

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