A política mexe, mas (ainda) não muda de lugar

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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O barómetro DN/Aximage de junho, que publicamos nesta edição (ver páginas 4 e 5), mantém a maior parte das tendências dos últimos meses, com uma exceção relevante: a AD recuperou terreno nas intenções de voto e melhora de forma visível na avaliação de desempenho. 39% dos inquiridos consideram que o Governo atuou “bem” ou “muito bem”, uma subida de seis pontos percentuais face a maio. No lado negativo, há também uma ligeira melhoria: as avaliações “mal” ou “muito mal” descem de 58% para 56%.

De resto, o PS mantém a liderança das intenções de voto, embora tenha perdido parte da vantagem face à AD. Os socialistas descem de 33,4% para 29,3%, enquanto a AD sobe de 23,2% para 25,3%. É uma aproximação que não altera a hierarquia, mas altera a leitura: o PS lidera destacado, mas já não está tão confortável, e a AD volta a ocupar o segundo lugar depois de ter caído para terceiro em maio. Além disso, na confiança para primeiro-ministro, Luís Montenegro lidera com 28%, face a 27% de José Luís Carneiro, o que, sendo pouco significativo, dados os valores em questão, é o inverso do que se registava em maio. Já Ventura surge com 22%, face a 25% há um mês.

A ligeira recuperação de Montenegro e da AD coincide com a melhoria na avaliação de desempenho, mas não resolve o problema estrutural da coligação governamental: 26% dos seus eleitores das legislativas de 2025 fugiram para outras paragens, nomeadamente para o PS, Chega, IL e Livre. A AD sobe, mas continua a perder parte da sua base – e isso limita a profundidade da recuperação.

O Chega, por sua vez, mantém-se estável. É o partido com a maior taxa de retenção do eleitorado: 92% dos eleitores de 2025 mantêm a mesma opção treze meses depois. Esta estabilidade é um dos dados mais consistentes do barómetro. Ventura não cresce, mas também não perde – e isso, no atual contexto político, é uma vantagem estratégica.

Ventura reforça ainda o seu estatuto como líder da oposição. 55% dos inquiridos reconhecem-lhe esse papel, contra 22% de José Luís Carneiro. É uma diferença que não resulta apenas da presença mediática: resulta da perceção de que Ventura é quem mais confronta o Governo e quem mais marca o debate público. A oposição, aos olhos dos portugueses, tem um rosto.

O barómetro confirma também que o Chega é apontado como o principal responsável pelo chumbo da lei laboral, com 48% das respostas. E confirma que a rejeição da lei é considerada “positiva” ou “muito positiva” por 61% dos inquiridos. Mas, apesar disso, o partido de Ventura não subiu nas intenções de voto. A visibilidade aumentou; o apoio não.

Face a estes dados, há pelo menos três notas que se colocam.

A primeira diz respeito ao impacto da rejeição da lei laboral. As intenções de voto no Chega não aumentaram, mas o eleitorado do partido manteve-se estável – é o mais estável de todos, como vimos –  o que indica que a decisão de votar contra a lei laboral não só está alinhada com o sentimento da maior parte da opinião pública, como também está em linha com o que o seu eleitorado pensa. Ventura não ganhou novos eleitores, mas consolidou os que já tinha. E, num sistema político fragmentado, a estabilidade é um ativo.

A segunda nota diz respeito ao porquê da recuperação da AD. A subida nas intenções de voto coincide com a melhoria na avaliação de desempenho, mas não se explica apenas por isso. A AD beneficia de dois movimentos simultâneos: a descida do PS, que perde parte da vantagem acumulada, e a estabilização do Chega, que não cresce apesar da visibilidade acrescida. A AD não recupera porque fez algo extraordinário; recupera porque o sistema político se reequilibra ligeiramente à sua volta. A melhoria na avaliação do Governo ajuda, mas não é suficiente para inverter o saldo negativo. O que a AD ganha é espaço e não necessariamente força.

O país entra no verão com uma paisagem política que mexe, mas não muda de lugar. O PS lidera, a AD aproxima-se, o Chega estabiliza, e os outros partidos  mantêm posições residuais, mas relevantes. O Governo melhora ligeiramente, a oposição não capitaliza o debate laboral, e André Ventura reforça o papel de líder da oposição, mas (ainda) sem transformar notoriedade em crescimento eleitoral.

O que nos leva à terceira e última nota. A política portuguesa continua num estado de movimento contido: há variações, há episódios, há ruído, mas não há mudança estrutural. O barómetro DN/Aximage de junho confirma isso mesmo - e confirma também que, apesar da volatilidade do debate, o eleitorado distingue entre quem marca o ritmo e quem está preparado para governar.

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