A pedra angular da política externa portuguesa

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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Portugal encontra-se perante uma oportunidade rara na política internacional. A possibilidade de os Estados Unidos retirarem parte das suas forças estacionadas noutros países europeus reabre um debate antigo, mas sempre atual, sobre o papel estratégico dos Açores e sobre o que o Governo português deve fazer para proteger o interesse nacional num contexto global cada vez mais volátil. Na conferência organizada pelo Diário de Notícias e pelo Açoriano Oriental, em Ponta Delgada, no passado dia 12, o presidente do governo regional, José Manuel Bolieiro, foi claro ao afirmar que esta conjuntura deve ser aproveitada para reforçar a presença norte-americana na Base das Lajes. O almirante António Silva Ribeiro, antigo chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, alinhou no mesmo diagnóstico. Não se tratou de voluntarismo político. Tratou-se de leitura estratégica.

A lógica é evidente. Independentemente do estado das relações entre Washington e Bruxelas, Portugal tem e terá sempre uma relação bilateral decisiva com os Estados Unidos, que continuam a ser a potência marítima dominante do nosso tempo. E essa relação passa inevitavelmente pelos Açores. A geografia não muda e, enquanto assim for, o arquipélago continuará a ser um dos pontos mais relevantes do Atlântico Norte. A segurança dos Açores é, em última instância, a segurança de Portugal. E essa segurança depende de um entendimento sólido com os EUA, algo que sucessivos governos portugueses sempre souberam gerir com prudência e sentido de estado.

Mas reconhecer esta realidade não significa aceitar uma posição de subserviência. Portugal não é um país sem instrumentos de negociação. Tal como a Dinamarca tem sabido usar a Gronelândia como trunfo estratégico, também Portugal tem cartas para jogar. Somos membros da NATO e da União Europeia, o que significa que temos alguma margem para exigir contrapartidas claras e proporcionais à importância da Base das Lajes. A discussão sobre contrapartidas não é um capricho. É parte integrante do interesse nacional. E esse interesse passa pela presença de contingentes norte-americanos e das suas famílias, pela dinamização económica associada, por investimentos estruturais, pela partilha de informação e de capacidades e, sobretudo, por garantias reforçadas de segurança para o território português. A presença militar não é um fim em si mesmo. É um instrumento de estabilidade.

O equilíbrio entre o Atlântico e o continente europeu sempre foi a pedra angular da política externa portuguesa. Não há razão para que deixe de o ser agora. Manter a aliança com os Estados Unidos, sem colocar em causa a pertença à União Europeia e os valores que partilhamos com os outros estados membros, é a única via realista para um país com a nossa dimensão e posição geográfica. E é também a via que melhor protege os Açores, que continuam a ser o nosso ativo estratégico mais valioso. O Governo português deve, por isso, agir com firmeza e clareza. Deve negociar contrapartidas robustas, deve reforçar a cooperação militar e deve garantir que a Base das Lajes volta a ter o papel que a geografia sempre lhe reservou.

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