A guerra na Ucrânia poderá estar a aproximar-se de uma resolução - não a paz ideal, mas a paz possível. Tudo indica que, caso se chegue a um cessar‑fogo, este conduzirá a um congelamento do conflito: uma pausa que permita travar o derramamento de sangue e adiar, para um futuro distante, a discussão das questões territoriais.A Ucrânia e a Europa que emergirão desta guerra serão profundamente diferentes das que existiam no início de 2022, quando os blindados russos atravessaram a fronteira para lançar uma suposta guerra relâmpago que rapidamente se transformou numa longa luta de atrito, custando a vida a muitos milhares de pessoas. O conflito tornou-se, em muitos aspetos, uma reedição moderna da Primeira Guerra Mundial: uma mortandade brutal e uma transformação profunda da forma como se combate, impulsionada por novas tecnologias que alteraram o campo de batalha.. A Ucrânia sairá devastada: grande parte da sua juventude estará ferida, estropiada ou exilada; as infraestruturas encontram-se destruídas; cidades inteiras foram reduzidas a ruínas; a economia está em colapso. A Rússia, outrora vista como a “grande nação irmã”, com forte influência sobre a identidade ucraniana, passou a ser encarada como um inimigo existencial, contra o qual o país terá de se proteger durante décadas. Com muitas das regiões russófonas sob controlo de Moscovo, é expectável que o nacionalismo ucraniano se fortaleça no plano linguístico e cultural. Paralelamente, o oeste do país, historicamente ligado ao espaço austro-húngaro, reforçará a sua integração no mundo Ocidental. A Ucrânia perderá grande parte do que tinha de russo, incluindo a chamada Novorossiya - conquistada aos turcos e tártaros por Catarina II e Potemkin - para se ancorar solidamente junto da União Europeia.A eventual adesão à União Europeia, possivelmente a partir de 2027, será decisiva para a reconstrução do país. A pertença ao bloco europeu permitirá garantir a soberania, financiar a reconstrução, combater a corrupção, modernizar a economia e melhorar as condições de vida de milhões de pessoas que sofreram profundamente durante estes anos de guerra.Para a própria União Europeia, a integração da Ucrânia representa também uma oportunidade estratégica.Primeiro, pelo seu potencial industrial, agrícola e mineral, que reforçará a segurança alimentar e energética europeia.Segundo, pelo papel que poderá desempenhar na defesa do continente: o Exército ucraniano, com quase um milhão de soldados e experiência real de combate, é hoje a força militar mais testada a oeste do Dnieper. Em conjunto com a Polónia, poderá assegurar a proteção da fronteira oriental da União, algo que, na prática, já tem feito durante esta guerra por procuração entre o Ocidente e a Rússia.E para Moscovo, o que significará esta paz possível e a integração da Ucrânia no bloco Ocidental? Zbigniew Brzezinski escreveu, em 1997, que “sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império; com a Ucrânia subornada e depois subordinada, a Rússia torna-se automaticamente um império”. Em outras palavras, a Ucrânia é o elemento que permitiria à Rússia recuperar massa territorial, populacional e estratégica suficiente para projetar poder imperial. A paz que agora se vislumbra permitirá apenas uma concretização parcial desse objetivo.Resta saber se o Kremlin estará disposto a aceitar, no longo prazo, uma Ucrânia soberana e plenamente integrada na Europa. Esperemos que os russos estejam realmente cansados da guerra e que, do lado europeu, exista coragem para negociar uma paz duradoura que garanta a segurança do continente nas décadas vindouras. Diretor do Diário de Notícias