A invasão de Évora

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Há uma semana Donald Trump Jr aterrou na capital gronelandesa, Nuuk, para uma “viagem exploratória” de um plano ambicioso: Trump argumenta que o controlo da Groenlândia é uma “necessidade absoluta de segurança económica”. A verdade é que esta obsessão vem de 2019 quando falhou a compra da ilha e a motivação é mais do que geoestratégica, é económica.

Falamos da maior ilha e do quinto maior país do mundo, 23,5 vezes maior do que Portugal, 1,5 vezes o PIB per capita português mas uma população de menos de 60.000 habitantes – pouco mais do que a cidade de Évora. Para além de rica em petróleo e gás, a Gronelândia fornece múltiplas matérias-primas com uma procura crescente em todo o mundo – incluindo cobre, lítio, cobalto e níquel. E o rápido degelo de partes de ilha pode reabrir novas explorações de petróleo, travadas desde 2021. Ao adquirir a Gronelândia, os EUA poderiam manter a China de fora desta equação.

O degelo do Ártico abre novas rotas marítimas, oferecendo alternativas ao canal de Suez que encurtam a viagem da Europa Ocidental para o leste da Ásia para quase metade. A Gronelândia é já uma importante base militar para os EUA e para o seu sistema de alerta de mísseis balísticos mas para Trump isso parece que não chega. Quer um novo Puerto Rico.

A Gronelândia foi ocupada pelos EUA e devolvida em 1945 à Dinamarca, que continua a controlar a política externa e de segurança da Gronelândia mas a relação não é pacífica e os gronelandeses há muito que reivindicam a sua independência. O primeiro-ministro da Gronelândia, Múte Egede, exige autonomia total da Dinamarca e parece contar com os EUA para o efeito. Mas os habitantes estão plenamente conscientes do que está em jogo. “Ninguém quer vender as nossas terras para uma aventura americana” refere uma ativista local. “A Gronelândia é um país de raiz socialista com princípios sociais seculares como o compromisso com a generosidade e a partilha que contrastam com o ethos individualista e orientado para o lucro, frequentemente associado às culturas norte-americana e ocidental.”

As pessoas na Gronelândia estão cansadas de serem “tratadas como cidadãos de segunda ou terceira classe” pela Dinamarca. O que a visita de Trump Jr mostrou é um alarme gritante de algo crucial: a Gronelândia é importante para as maiores potências do mundo. E esta é uma realidade que não se pode ignorar. A atenção dos EUA à Gronelândia e a exposição mediática está a dar ao país muito mais influência, especialmente sobre a Dinamarca, cujo controlo sobre a Gronelândia está a derrapar. Por isso, até acaba por haver boas razões para os gronelandeses estarem gratos a Donald Trump Jr.

Neste contexto, Trump até pode cumprir a sua promessa de forma soft mas completa e eficaz. Embora militarmente fosse até mais fácil do que a invasão das Falkland pelo Reino Unido, não é de todo credível que os EUA invadam a Gronelândia. É verdade que o território não tem defesas militares sérias e os protestos internacionais seriam brutais mas faz algum sentido imaginar um batalhão de Marines tomar o controlo de Évora ? A invasão é um típico sound byte de Trump mas apoiar a tomada do poder por um governo alinhado com os seus interesses, respeitando os valores da maioria inuit e completamente autónomo da Dinamarca não é uma opção que seja de excluir. Nem as sanções à Dinamarca para a levar a ceder.

Empresário, gestor e consultor

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